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Carta para o meu amigo Tom Jobim

 

tom_jobim


Pois é, lá se vão onze saudosos anos, (08/12/1994) amigo. Impossível o tempo não parar quando me lembro da sua inesquecível e amável pessoa. Eu apenas um humilde português-carioca, dono de um botequim em Ipanema, você, a estrela maior do meu boteco. O Brasil não inventou nenhum Bach, nenhum Beethoven, nenhum Berlioz, mas Ele sabidamente criou um genial Villa Lobos e, claro, à dadivosa sequência, um classudo Tom Jobim. Como compositor, posso afirmar, apesar de ser um leigo conhecedor à classificação musical, você acabou sendo tragado pelo rótulo de bossanovista como se fosse esta a matriz de sua criação, a despeito de obras fora desse modelo, como a citada Sinfonia do Rio de Janeiro.

 

Você não era só isso, era multi artista como havia sido um multi amigo. Nas noitadas de nossa mútua convivência em Ipanema, (ah, bons tempos!) onde aprendi a te admirar como figura humana muito mais do que a de um freguês, (aliás, você foi um dos poucos artistas que tradicionalmente não deixou qualquer pendura, o Hugo Bidê que o diga), posso dizer com muito orgulho, que você faz parte de minha exaustiva existência e de minhas maravilhosas lembranças.

 

Sei muito bem que você frequentava quando não parava no meu bar, no Mocambo, Clube da Chave, Acapulco, Farolito ou Vogue, mas você geralmente amanhecia no Far-West, comendo um bife com ovo e, para minha sorte, findava inspirado às noites boêmias, no meu boteco, o ex-Veloso, futuro Garota de Ipanema. Você fumava pelo menos uns quatro maços de cigarro, parecia que me imitavas, e eu trocava os cinzeiros a cada cinco minutos. E daí?! Mesmo sabendo da necessidade de uma dieta rigorosa, você, Tom, jamais mudou seus hábitos por causa das doenças. Seguia comendo o seu franguinho, que eu grelhava especialmente sem gordura alguma, e tomava vinho Valpolicella Bola, que eu comprava unicamente por sua causa. Você emagrecia, mas voltava tudo de novo. Você tentou mudar do uísque para a cerveja, me lembro, e depois, para o vinho, mas não conseguiu deixar de tomar pelo menos uma dose de Scotch por noite. Além disso, ia traçando seus charutos.

 

Uma noite dessas, você me chamou e me perguntou se conhecia algo que pudesse considerar sobre o espírita Alan Kardec. Logo pra mim? Tinha entendido a sua –angustiada- pergunta. O conhecia apenas de nome, lhe respondi. Desconfiei que você estivesse realmente precisando de algo que pudesse te revigorar mais até que os teus parceiros de tudo: Vinicius, o Menescal e os demais. Tampouco as bebidas não respondiam às suas perguntas naquela que foi sua frágil condição física. Mas, mais do que nunca, sua verve poético-musical foi tão inspirada e... definitivamente inspiradora. Como se diz filosoficamente: no sofrimento humano é que se poetiza o ser?

 

Eis me aqui, ainda. Muitas coisas mudaram desde então, meu amigo. Acredito até que para pior. Não existe mais aquele veemente caráter romântico que embalava nossas existências como naqueles anos musicalmente perfeitos. Você, querido Tom, faz falta, não tão somente à minha pessoa de amigo e comerciante, mas a toda uma geração, que não tem mais a mesma disposição em ouvir tocarem músicas românticas, apenas cacofonias modernosas nas rádios e afins: músicas sem alma.

 

Saudades é o mínimo que podemos sentir,

 

 

jorge

Jorge Manuel Ferreira de Faria

Imigrante português que soube, que começou sua independência profissional como aprendiz de garçom numa churrascaria no Centro do Rio, nos anos cinquenta, para tornar-se, alguns anos depois, sócio da mais importante casa boêmia que se tem conhecimento, em Ipanema, no Rio de janeiro o Bar Veloso,  posteriormente, com a benção de Tom Jobim, Garota de Ipanema. Foi Jorge que deu a idéia à feliz mudança do nome durante um relaxante bate-papo com nosso músico maior, que prontamente aceitou à conversão-título, brindando com Jorge à criação do Bar Garota de Ipanema, o que viria a se tornar durante e depois dos anos de chumbo, o quartel general da guerrilha cultural brasileira. Jorge Faria vive na Barra da Tijuca a mais de 40 anos, é proprietário do Galeto Viva Flor em Copacabana e produziu o filme Garota de Ipanema - o Bar, documentário que reuniu várias personalidades e artistas da Bossa Nova.