O mês de agosto se realizaram as Olimpíadas Rio2016 que teve um período superior a 6 anos de planejamento e obras para se tornar realidade. Tal planejamento e ordenamento de metas não é comum na cultura deste país, principalmente de seus governantes que só conseguem raciocinar por um período não superior ao seu mandato, ou seja, por 4 anos. Neste sentido foi realmente um legado olímpico obrigar os políticos a pensarem por um plano plurigovernamental, superior ao período político tradicional de 4 anos. Se somarmos a isso a necessidade de alguma integração entre os governos municipal, estadual e federal, algo impensável num passado recente, então foi uma excelente oportunidade pelo exercício da união de esforços num mesmo propósito. Esta prática realmente estamos precisando para poder atingir uma maior eficiência econômica e de resultados.

Em termos de legados de equipamentos urbanos (saneamento, transporte público e acessibilidade), de equipamentos esportivos (arenas) e de equipamentos turísticos (hotelaria) acredito que avançamos muito. Um belo desempenho.

Por outro lado, o legado da Sustentabilidade deixou muito a desejar. Durante a candidatura  o Rio para sediar os jogos olímpicos em 2010 a evidência e o vigor das propostas de sustentabilidade engoliam as promessas dos equipamentos urbanos, esportivos e turísticos.
Tanto é, que por mais incrível que possa parecer, a Olimpíada Rio2016 seria dos Jogos da Sustentabilidade. Compromisso firmado pela prefeitura de construção de 4 Unidades de Tratamento de Rios-UTR’s como o do Arroio Fundo que iriam impedir a chegada de lixo e esgotos no Complexo Lagunar de Jacarepaguá foram abandonados. Compromisso firmado pelo governo do estado de tratar 80% do esgoto que chega ao espelho d’água da Baía de Guanabara através de investimentos de Estações de Tratamento (50%), rede de coletora de
esgotos, UTR do Rio Irajá (11%) e mais a UTR do Rio Pavuna (23%). Caso cumprida a meta seria de 84% do esgoto tratado antes de chegar a Baia de Guanabara. Destes apenas a CEDAE conseguiu elevar de 11% de esgoto tratado em 2010, atingir a meta de 50% em 2016, ou seja, cumpriu a sua meta. Faltaram as UTR’s. Hoje a UTR do Rio Irajá está construída mas não foi posta em operação por falta de recursos de operação. A UTR do Rio Pavuna nem iniciou.

Sustentabilidade representa qualidade de vida, saúde pública, meio ambiente natural equilibrado e em harmonia com meio ambiente urbano, águas naturais salubres, florestas preservadas, cidades responsáveis com os rejeitos produzidos.

Findo as Olimpíadas a nossa realidade de sustentabilidade quase que retorna para as mesmas condições anteriores, com pouco ou nenhum resultado palpá- vel deixado. Para não se dizer nenhum, cita-se por dever da verdade reconhecer o Selo de Bairro Sustentável alcançado pela Vila Olímpica ou Ilha Pura. De resto continuamos com o Complexo Lagunar de Jacarepaguá e a Baía de Guanabara, poluídos, praias vagalume, ora com boa qualidade ora sem qualidade d’água alguma, déficit no tratamento dos esgotos, e pouco cumprimento
das metas de construção de equipamentos de tratamento das águas servidas pela cidade.

Lamenta-se apenas que as poucas soluções tecnicamente e economicamente viáveis como é o caso das UTR’s, comprometidas, projetadas e ambientalmente licenciadas não são concretizadas ficando apenas justificativas bisonhas para não serem realizadas.

Com isso a cidade maravilhosa vai pouco a pouco perdendo suas belezas naturais e sua qualidade de vida deixando um rastro de sujeira e risco à saúde publica. Neste sentido, passado a euforia das olimpíadas e retornando a nossa difícil realidade devemos mais do que nunca nos manter alertas e continuar na perseguição por melhores soluções e cumprimento das metas/promessas previamente acertadas entre governo e sociedade. Sem isso a sociedade paga um preço elevado pelas obras não realizadas, com sua saúde e com a depreciação do seu patrimônio natural e urbano.

Prof. Dr. David Zee
Vice-Presidente da Câmara Comunitária da Barra da Tijuca