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A polêmica do Carnaval envolvendo a Prefeitura precisa ser analisada com isenção. Carnaval e futebol são terrenos da emoção. Não falta paixão. O embate do prefeito Marcelo Crivella com a LIESA é lamentável. O que está em jogo não é o corte dos R$ 11 milhões para as escolas. O que causa mal estar é outra coisa bem mais cara e grave. Vale apena refletir.

Crivella fazia parte de uma nova safra de políticos. Pessoas honestas, convictas, com princípios religiosos e morais, e que chegaram ao poder pelo voto, no mesmo momento em que os principais adversários e detratores estão presos e frequentam as manchetes policias. É como se as urnas, por interferência divina, tivesse separado o joio do trigo.

Na última campanha, confrontado com o radicalismo do Marcelo Freixo, Crivella abriu novas frentes. Criou um campo de interlocução impensável no tempo que era só um bispo da sua igreja e vivia na bolha da Universal. A pluralidade do candidato conquistou simpatias, entre elas, a do pessoal do Carnaval. Visitou a Cidade do Samba e conquistou apoio, prometendo apoiar e não mexer no desfile.

O curioso é que, exatamente no ambiente de parte das escolas de samba, é que a palavra e os acordos valem pelo fio do bigode. Falou tá falado. Não precisa assinar. No ambiente antigo dos contraventores do jogo do bicho, o que estava apalavrado valia ouro.

É exatamente neste ambiente que Crivella foi como candidato. Prometeu agir de uma forma, ganhou apoio e agora mudou o discurso. Cadê o político
diferente, no qual a palavra é divina e que se podia confiar?

A sensação que temos é que o agora prefeito Crivella é outro. Logo no início do mandato, num almoço com o pessoal do turismo e autoridades internacionais, ele falou, fez convites e depois teve um surto aminético. Nada do que disse foi cumprido. Como acreditar em um homem, em um pregador, em um homem de Deus, em um político de uma nova safra, se ele não cumpre a palavra ou o que promete? Age como político da pior safra.

O que seria o novo fica envelhecido precocemente. Não é necessário nem o tiroteio das organizações Globo. O próprio Crivella cria os factóides que corroem sua imagem, como foi o caso de atribuir "as cólicas do parto" a questão do embate com a Liesa.

No caso em tela, o prefeito podia ter agido diferente. Colocar a Riotur em campo para captar patrocínios e, com a solução financeira feita, anunciar que, ao invés da Prefeitura, o aporte viria do capital privado. O que seria fácil. A Riotur é hoje uma máquina de marketing de excelência.

Marcelo Crivella vem de um cenário de quase fanatismo e de fiéis que dizem amém por uma questão messiânica. Isso é atitude de apenas parte do seu eleitorado com DNA religioso. O povo de Deus, sozinho, seria incapaz de colocá-lo no Palácio da Cidade. O grosso dos votos veio de um eleitorado conquistado, que acreditou no novo e plural Crivella do segundo turno.

Cabe ao Prefeito refletir e agir. Faltar ao Carnaval de 2017 foi um péssimo presságio. O eleitor ficou decepcionado com a sua ausência, mas foi benevolente. A cruzada que estabelece agora, de forma danosa para a indústria do turismo, deixando o carnaval dentro de um clima de conflito é lamentável.

O prefeito perdeu o apoio de um dos seus maiores avalistas, o Boni. Um gênio colocado à sua disposição e que iria reformular exatamente o carnaval, transformado agora em praça de guerra.

A pior coisa para um bicheiro é perder a credibilidade da sua palavra. Para um pastor também. Para o prefeito, um político, é até esperado: não leve a sério o que prometi na campanha. Uma pena que a palavra do nosso novo prefeito comece a desidratar tão precocemente. Nada que não possa ser corrigido, principalmente se o horizonte estiver muito além do Palácio da Cidade, e tiver consciência de que o seu público não é formado por uma legião de fanáticos que lhe dizem amém, mas por eleitores que agora lhe disseram sim e que amanhã poderão lhe dizer não.