Moradora da Barra, Priscila Zanatelli cria um universo lúdico para mostrar que o emocional não é um tabu


Por Marcelo Perillier

Lidar com as emoções não é algo fácil. Controlar a raiva em momentos ruins, a gargalhada rompante em momentos de alegria ou até mesmo o choro quase berreiro em momentos tristes. Foi pensando nisso que a bacharel em comunicação pela Universidade Gama Filho, mestre em educação pela Universidade da Pensilvânia (EUA), especialista em Gestão Empresarial pela Fundação Getúlio Vargas, empresária e moradora da Barra Priscila Zanatelli resolveu escrever o livro “Monstrinho Taboo em Descobrindo as Emoções”.

A história aborda as experiências vividas por Taboo, um monstrinho muito exagerado em suas emoções, o que lhe causa dificuldade em fazer amigos. Com imagens bem coloridas e uma linguagem bem simples, mas contundente, Priscila mostra o quanto é importante a criança entender mais sobre suas emoções, para não ficar um adulto difícil e complicado de conviver.

Fundadora da Lightouch, uma empresa cujo propósito é ajudar famílias e crianças no desenvolvimento da inteligência emocional, Priscila quer mostrar no livro, lançado nesta sexta (9), na Amazon Prime, ao custo de R$ 46, o quanto é importante a criança, desde cedo, lidar com seus sentimentos.

Marcelo Perillier: O que te motivou a escrever o livro?

Priscila Zanatelli: Trabalhei muito anos com treinamento e desenvolvimento de adultos. Percebi como era difícil mudar questões comportamentais. Tão difícil que alguns diziam impossível se fazer ajustes. A falta de empatia, controle emocional e até autoconsciência, atrapalha muito o ambiente de trabalho. Caso não consiga lidar com pessoas, e tudo o mais que isso envolve, ou seja, o histórico de vida, as expectativas, as frustrações, as diferentes maneiras de ser, por exemplo, passará por dificuldades. Não é à toa que mais de 90% das demissões estão ligadas à falta de inteligência emocional. Então, pensei que seria interessante focar em crianças, pois ainda estão em formação, e geralmente com maior facilidade de absorver este tipo de conteúdo nessa fase da vida. O Taboo surgiu em uma conversa com meu marido, além de inspirado em alguns adultos que conheci no ambiente de trabalho.

MP: Até que ponto sua formação acadêmica ajudou a desenvolver a história?

PZ: A formação acadêmica, assim como a profissional, aliada à maternidade, reuniu elementos complementares que foram importantes no desenvolvimento do projeto do livro; da concepção à execução, passando pela elaboração, bem como na criação da história em si.  O bacharelado em comunicação (primeira formação) ajudou na parte da escrita e na criatividade. O curso de extensão “Formação Holística de Base na abordagem transdisciplinar - Desenvolvimento humano integral”, na Universidade da Paz (https://www.unipazrj.org.br/), auxiliou num maior entendimento sobre as diversas inteligências do ser humano e das técnicas de meditação / respiração. O curso de administração de negócios (MBA) da Fundação Getúlio Vargas foi importante na área de Gestão Empresarial; na estruturação da ideia, no pensar em parcerias, na formatação, etc. O mestrado em Educação pela Penn State possibilitou o entendimento da abordagem que precisava ter ao entrar neste universo infantil.

MP: O nome do monstrinho se chamar Taboo é para fazer alusão à palavra tabu. No entanto, o tema da história ainda é um tabu na sociedade?

PZ: Acredito que sim, mas felizmente, cada vez menos. Antigamente, era considerado “errado” ficar com raiva, com medo; como se fosse importante esconder as emoções. Hoje, há uma visão diferente. Não podemos ignorar o que sentimos – seja medo, raiva, alegria, tristeza –, mas sim, descobrir formas de acolher estas emoções e transformá-las em ações positivas para nós mesmos. Lembro-me de ter ficado de castigo na escola por ter dito para uma professora que estava com raiva de uma colega. Isso mostra como havia dificuldade em se aceitar as emoções. Imagina o absurdo você não poder validar um sentimento ou uma emoção…

MP: A história é bem lúdica, cheia de desenhos e com um vocabulário de fácil entendimento. As rimas em algumas frases servem justamente para aproximar a criança do tema principal da história?

PZ: Certamente. Já fiz algumas rodas de leitura onde a criança, por saber que virá uma palavra rimada, tenta adivinhar qual será a próxima palavra que está por vir. Isso torna a história mais interativa. Elas participam ativamente da situação!

MP:  Trabalhar as emoções com os adultos é complicado, assim como com as crianças, já que ela pode ser rejeitada por amigos. Até que ponto uma ajuda emocional dos pais e dos educadores é fundamental no crescimento e na maturação na vida de uma pessoa?

PZ: O livro The Whole-Brain Child (Daniel J. Siegel e Tina Payne Bryson), dentre outros, diz que o cérebro das crianças é um espelho do cérebro dos pais. Neste sentido, é uma ilusão se achar que vai trabalhar única e exclusivamente a criança, sem trabalhar o adulto. Por isso, é importante trabalhar também os responsáveis por elas. Este não é um tema fácil. Precisa ser uma construção entre pais, filhos, escola e comunidade. Somente através dessa rede de apoio, por meio da conscientização quanto à importância do tema, conseguiremos bons resultados.

MP: “Pensar antes de agir”. Isso é algo que muitos escutam de terapeutas e psicopedagogos. Contudo, como você espera, com a história, que a criança entenda a importância dessa frase?

PZ: Com a história, espero que a criança RESPIRE antes de agir. O "pensar" virá como uma consequência. De um modo geral, sugerem os estudos que o fato de se respirar antes de agir, faz com que seja acessada a parte do cérebro que nos ajuda a pensar, e, a partir daí, escolher a melhor forma de agir; evitando assim a ação instintiva do cérebro reptiliano. Portanto, se eu pudesse escolher uma única mensagem para a criança extrair ao ler o livro, seria a de parar para respirar fundo. Respire antes de qualquer coisa! Parece simples, contudo, pode ser definitivo para se evitar diversos problemas!

MP: As relações em sociedade são complicadas, principalmente com as diferenças socioeconômicas. A história poderia ajudar a criança a perceber que as diferenças podem somar no crescimento pessoal?

PZ: Acho que sim. Apesar de não ver uma relação direta no desenvolvimento da Inteligência Emocional com o aspecto socioeconômico, penso que todos devemos atentar ao desenvolvimento socioemocional. Ele é a base de tudo, inclusive na percepção de que as diferenças podem ser complementares. Quando uma pessoa tem empatia pela outra, consegue enxergar com "a lente" do outro, digamos assim. Ou seja, passa a entender, a relevar, a perguntar os motivos do outro. Enfim, abre a perspectiva de começar uma relação com base no respeito. Isso é a chave para se valorizar a diferença!  

MP: As alusões de que o choro cria um rio, no grito ele engole as pessoas e a tremedeira cria um terremoto ajuda a criança a perceber com mais facilidade que os excessos podem atrapalhar as relações, deixando-a mais sozinha? Por quê?

PZ: Provavelmente, quando a pessoa, criança ou adulta, não consegue lidar com as emoções, tem mais dificuldades em construir relacionamentos saudáveis. Do manejo emocional dependerá a saúde relacional.  Com o livro, quero que a criança perceba que é normal sentir raiva, medo, tristeza, alegria etc., mas que toda ação gera uma reação, e, a reação - dependendo de como ela escolhe agir - poderá ter um impacto negativo na vida dela mesma. No caso do personagem da história, o Taboo, ele não consegue fazer amigos justamente porque não escolhe a melhor maneira de reagir quando sente uma emoção.

MP: Como mãe, até que ponto a história serve para melhorar a relação materna com os filhos e vice-versa? Eles já leram a história? O que acharam? Eles deram algum parecer técnico na formação da história?

PZ: Por ser mãe, senti que poderia falar com meus filhos sobre um tema importante, sério e por vezes difíceis de abordar de uma maneira divertida, lúdica, leve. Isso ajuda a aproximar a criança. Muitas vezes, falamos assim aqui em casa… "Ih, o papai agora tá virando o Taboo, com fumaça saindo pela orelha..." Em momentos assim, tanto a criança mostra que entendeu o conceito, ou seja, de que o outro está sentindo raiva, está nervoso etc., e que, portanto, ele precisará de um tempo para se acalmar, quanto o próprio adulto acaba se dando conta de que necessita escolher melhor a forma de reagir. Caso contrário, correrá o risco de afastar as pessoas. Uma brincadeira vira lição que, ao ser vivenciada, acaba sendo, de fato, compreendida.  Eles participaram do processo criativo dando ideias e mudando alguns pontos. Vibraram a cada conquista, comemorando quando o livro ficou pronto. Já relemos o livro tantas vezes, que eles já decoraram várias partes. As crianças são muito atentas e críticas, já recebi vários feedbacks importantes para melhorar a próxima edição.

MP: Pretende escrever outro livro? Já tem o tema escolhido?

PZ: Sim, já tenho algumas ideias. Gostaria de escrever sobre a teoria de Pierre Weil. Ele aborda a fantasia da separatividade que se traduz no paraíso perdido, gerando o sentimento de abandono e de desvinculação. Dentro dessa temática, o personagem desse futuro livro chama-se Touli, um menino que nasceu com botas nos pés e mochila nas costas, prontinho para grandes emoções. O foco é a importância da natureza, indivíduo e sociedade, sendo vistos como partes de um mesmo todo. E, na linha do equilíbrio entre feminino e masculino, quero publicar uma obra que falará de Lily, um beija-flor do mundo Mitawa, personagem que realça a força da delicadeza.

SERVIÇO
Livro: Monstrinho Taboo em Descobrindo as Emoções
Número de Páginas: 44 Páginas
Preço: R$46,00
Canal de Venda: Portal Amazon
Indicação: Infantil (de 04 até 08 anos)