Imóvel é antiga fazenda história de Jacarepaguá e patrimônio colonial tombado pelo Iphan localizado em Área de Proteção Ambiental 



A Prefeitura do Rio assinou, em janeiro deste ano, o termo de aquisição da Fazenda da Baronesa, propriedade histórica do século XVIII na Taquara, localizada às margens da Estrada Rodrigues de Caldas, em Jacarepaguá. Em cerimônia com a  presença do prefeito Eduardo Paes, foi anunciada a transformação da área em um novo projeto: o Parque Taquara Fazenda Baronesa, um complexo público voltado ao lazer, à cultura e à preservação ambiental.

Segundo Paes, o objetivo é devolver à população um espaço de grande valor histórico e simbólico para a cidade, especialmente para a Zona Sudoeste, fortalecendo o acesso à memória e ao patrimônio cultural carioca. Além disso, a Rio-Urbe ficará responsável por lançar a licitação para contratar a empresa que vai elaborar o projeto básico. A orientação é que o desenho respeite o conjunto arquitetônico histórico e os valores culturais e ambientais da área.

A Fazenda está dentro de um território marcado por diferentes etapas da formação histórica do Rio de Janeiro e está inserida no Corredor Cultural de Jacarepaguá, conjunto de equipamentos históricos, culturais e patrimoniais da região. O imóvel também está localizado em área de proteção ambiental, o que reforça a importância da preservação dos valores naturais, paisagísticos e ecológicos do território. 

“Espaços públicos são direito, não são luxo, não são lazer. Da mesma maneira que quem vive na Zona Sul do Rio de Janeiro tem o Aterro do Flamengo, ou quem vive na Lagoa tem a Lagoa Rodrigo de Freitas, ou quem vive na região central da cidade tem a Quinta da Boa Vista, o prefeito Eduardo Paes mostrou que é direito de Jacarepaguá ter o Parque Taquara Fazenda Baronesa”, afirmou o vice-prefeito, Eduardo Cavaliere. 

Os herdeiros da Fazenda, Tomaz e Ana Carvalho, participaram da cerimônia. Tomaz agradeceu a sensibilidade do prefeito por não ter acelerado a negociação em respeito ao patriarca da família, Francisco José Telles Rudge, proprietário que tinha muito apego ao local. “Estou aqui para agradecer ao prefeito, que retardou a desapropriação, porque essa propriedade era do nosso tio Chico. A única coisa que me vem à cabeça é fazer uma homenagem a ele. Esse imóvel sempre foi a paixão da vida dele, que nos deixou há dois anos, aos 99 anos e 11 meses”, contou Tomaz.

 

Séculos de história, arquitetura colonial e passado indígena e escravagista 

A Fazenda da Taquara surgiu ainda no século XVIII e faz parte do conjunto de antigas propriedades rurais que ajudaram a formar Jacarepaguá e a Zona Sudoeste da cidade. Tombada desde 1938 pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), a fazenda tornou-se ainda mais popular por ser cenário do remake da novela “Renascer”, na TV Globo. 

Localizada em um terreno elevado, às margens da antiga Estrada da Taquara, a fazenda foi, por muitos anos, um importante ponto de organização da vida econômica, social e religiosa da região. O local pertenceu ao Barão da Taquara e, posteriormente, à Baronesa da Taquara, personagens diretamente ligados à história do território.

Na descrição do Iphan, o imóvel é “um exemplo das construções rurais da região da Baía de Guanabara, com amplo avarandado e colunas toscanas de alvenaria. No século XIX, recebeu um sobrado de estilo neoclássico no eixo frontal, ampliando seu conjunto arquitetônico”. O conjunto é formado pela casa principal da fazenda e por uma capela dedicada à Nossa Senhora dos Remédios e à Exaltação da Santa Cruz. Ao longo do tempo, parte da antiga área da fazenda foi loteada, mas o núcleo histórico permaneceu preservado, mantendo sua relevância como referência cultural e de memória para Jacarepaguá. 

A Capela da Exaltação da Santa Cruz, na Fazenda da Taquara — Foto: Danilo Perelló

O complexo conta com armazéns, cavalariças, alpendre, cruzeiro, pátio principal com fonte e diversos pátios internos e externos, além de um dos mais antigos engenhos da cidade, o Engenho da Taquara, antes chamado de Engenho de Dentro.

A propriedade está inserida em uma Área de Proteção Ambiental (APA) desde 2002 e, nos fundos da fazenda, quase escondidas entre a vegetação, é possível observar as ruínas de algumas das construções citadas e fragmentos de objetos usados por senhores e escravizados, segundo apuração e visita do GLOBO-Barra, guiado pelo historiador Marcos André de Azevedo, atual administrador do imóvel, onde mora desde 1994. 

Além disso, o historiador também aponta a presença dos últimos bambuzais nativos da região, que noutros tempos eram usados pelos indígenas que primeiro ocuparam aquelas terras para a criação de cestos e outros objetos. Já a elevação de terra onde foi construída a sede da fazenda teria sido formada pelos indígenas, antes mesmo da chegada dos portugueses ao Rio de Janeiro.

A Casa Grande reúne duas fases distintas da arquitetura brasileira. As partes laterais foram construídas no século XVIII, com apenas um pavimento, enquanto o corpo central recebeu um segundo andar no século XIX. Em frente à edificação, há um amplo pátio pavimentado com tijolos de barro cozido, além de um antigo bebedouro e um alinhamento de palmeiras que marcam a paisagem do local.

Outro destaque é a grande varanda, com colunas e arcos, típica das casas rurais brasileiras, que organiza a circulação dos ambientes internos. A capela anexa mantém características originais do período colonial, como a nave única, a torre sineira e a cobertura em abóbada.

Embora esteja bem preservada, a sede do imóvel tem obras de arte do século XVIII que nunca foram restauradas, assim como afrescos pintados nas paredes de vários cômodos descascados pelo tempo. Uma das obras é um quadro de quase três metros de altura, que representa a ascensão de Nossa Senhora e cuja autoria é atribuída ao pintor Leandro Joaquim. Resgatado de dentro da capela durante uma grande enchente que atingiu a região em 1996, a tela tem pedaços rasgados. 

Outro destaque da Fazenda é o brasão que fica acima da porta principal da sede. Segundo Azevedo, trata-se de um brasão de armas e fidalguia dado pela Coroa portuguesa à família do Barão da Taquara. Por outro lado, o historiador avalia uma outra peça como a principal entre o mobiliário colonial: um grande vaso de barro com o brasão do Império.