JORNAL DA BARRA - redacao@jornaldabarra.com.br

Pin It

Por Guilherme Cosenza

“Hoje vivemos um Apartheid entre a Favela e o Asfalto”. Exatamente para mudar esse cenário da cidade do Rio de Janeiro, que o empresário e visionário do maior evento de música da América Latina, Roberto Medina uniu forças com o projeto Viva Rio, a Central Única das Favelas (CUFA) e o Sebrae para trazer esse ano o “Espaço Favela” para dentro do Rock In Rio.

Para anunciar o novo espaço, Medina reuniu a imprensa na sede do Rock In Rio na Barra da Tijuca e junto com o presidente do Sebrae, Guilherme Afif, o diretor-executivo do Viva Rio, Rubem César, a diretora de produção da CUFA, Elaine Caccavo e o curador artístico do evento, Zé Ricardo anunciou como será o novo espaço. “No primeiro dia do Rock in Rio do ano passado eu me deparei no rádio com a notícia de um tiroteio na Rocinha. Isso para mim acabou sendo muito estranho, enquanto você tinha 120 mil pessoas no Rock In Rio em paz, brincando e cantando, você tinha as pessoas do outro lado no meio de um tiroteio e com medo. Mas o Rio de Janeiro não é do tiroteio”, conta Medina que explanou a real sensação vivida atualmente pelos cidadãos da cidade: “todas essas questões reais que nós estamos vivendo, traz uma sensação de insegurança ainda maior do que a insegurança. Por isso, eu acho que a gente tem que abrir as perspectivas dos cariocas para o futuro. Eu acredito profundamente que é a sociedade que constrói as pautas dos governos”.

O novo espaço apresentará as mais diversas manifestações culturais vindas de dentro das comunidades: “essa história ela tem um peso muito grande, ela tem uma responsabilidade muito grande que é darmos luz a talentos que existem dentro das comunidades cariocas. Não é nenhum assistencialismo ou ajudinha, estamos querendo ir para as favelas para contratar grandes artistas, porque nas comunidades cariocas tem grandes artistas”, conta Zé, responsável pela área artística do espaço. Será realizado um show por dia com os artistas selecionados dentro das comunidades. Contudo, quem quiser tentar a vaga, terá que enfrentar uma avaliação digna da grandiosidade do evento: “o artista vai passar pela mesma curadoria, com os mesmos critérios que eu sigo para o palco Sunset, que são qualidade e a busca pelo melhor”.

Para seleção, uma equipe responsável do próprio evento irá até as comunidades para entrevistar e descobrir os grandes talentos escondidos nas comunidades cariocas: “se encontrarmos nessa caminhada grupos, músicos, pessoas talentosas, porém ainda com necessidade de aprimoramento, iremos aprimora-las até o dia da apresentação. Também quero destacar a nossa parceria com o grupo ‘Nós do Morro’ que irá apresentar um espetáculo exclusivo para o Espaço Favela e que irá acontecer três vezes por dia, com dança e teatro, será outro grande espetáculo do espaço nos sete dias”. O trabalho de pesquisar e achar esses grandes talentos ainda terá o apoio e parceria do Viva Rio e da CUFA: “temos uma trajetória de 20 anos de ação em prol dos moradores de favelas do Brasil, e essa parceria com o Rock In Rio é mais uma oportunidade de mostrar ao mundo a potência desses territórios”, conta a representante da CUFA.

O Espaço Favela também trará para dentro do Rock In Rio outro aspecto das comunidades cariocas, o microempreendedor. O Sebrae irá, a partir de talentos da gastronomia das comunidades, juntamente com o Rock In Rio oferecer uma oportunidade para os pequenos negócios, que poderão entrar em contato com cerca de 700 mil pessoas ao longo de todo os dias do festival de música. Os escolhidos receberão qualificação e suporte na legalização da operação. Ao final do espetáculo, o evento ainda irá ceder aos microempreendedores equipamentos para suas cozinhas para possibilitar que os moradores possam continuar seus negócios com mais qualidade: “nós reconhecemos o talento e a criatividade nos negócios que existem nas favelas. Ali se gera emprego. Uma das nossas ideias é levar para estes microempreendedores as ‘fintechs’, pequenas empresas tecnológicas que podem ajudar na concessão de crédito”, afirma Afif.

“Essa é mais uma ousadia. O Rock In Rio era uma ousadia quando começou lá atrás e agora tem mais uma que é trazer a favela para dentro da Cidade do Rock. Enquanto tem muita gente querendo distância da favela, o Rock In Rio faz o contrário, ele quer a favela aqui dentro, ele quer a favela. Eu acho que o evento é uma declaração de amor à cidade. As pessoas que me desculpem, mas não dá para amar o Rio sem amar a Favela”, contou o diretor da ONG Viva Rio, que salientou: “aqui nós temos o Cristo Redentor, o Pão de Açúcar, Copacabana e a favela, que são as marcas mais fortes do Rio em qualquer lugar do mundo, onde você estiver se falar ‘Favela’, todo mundo entende e sabe do que se trata. Por isso, convidar a favela para dentro da Cidade do Rock é a grande ousadia dessa edição”.

Medina falou também sobre a importância do engajamento social do espetáculo dentro da cidade: “com o Espaço Favela nós queremos, não só trazer música, que já seria suficiente, queremos trazer o assunto para debater, saber o que a sociedade pode fazer, o que o poder público pode fazer, para gente melhorar e começar a dar um primeiro passo nessa evolução e na melhoria de vida dessas pessoas”.

O trabalho com as favelas promete ser ainda maior do que os sete dias de eventos, a equipe envolvida ainda pretende escolher uma das favelas cariocas para ajudar com um projeto urbanístico: “o compromisso é ainda maior, acho que podemos financiar, a um custo quase zero, parcelado e sem carência, o material para que o morador possa dar uma arrumada em sua casa e dar para ele a oportunidade de ter uma moradia mais bacana. Isso é algo que já conversamos, é um trabalho complexo, tanto da titularidade, quanto criar esse cartão social, mas iremos dar esse primeiro passo na melhoria”, encerra o presidente do evento.