Subprefeitos das duas regiões detalham ações de acolhimento e os desafios diante da recusa de abrigamento e do impacto na segurança pública

 

 

Um dos principais reflexos da desigualdade social e do desemprego na capital fluminense é o aumento visível da população em situação de rua. Na região da Barra da Tijuca e do Recreio dos Bandeirantes, tornou-se comum encontrar pessoas vivendo sob marquises e viadutos em condições sub-humanas — uma realidade que se repete nas principais vias de Jacarepaguá.

Para entender as medidas adotadas para mitigar o problema, o Jornal da Barra procurou as subprefeituras locais. Embora a vulnerabilidade social não esteja obrigatoriamente atrelada à criminalidade, o crescimento do contingente nas ruas tem ampliado a sensação de insegurança entre moradores e transeuntes.

Um dos abrigos municipais da Prefeitura do Rio.

Nas reuniões do 31º Conselho Comunitário de Segurança (CCS), o tema é recorrente. Moradores relatam a presença constante de pedintes nos semáforos e entre os veículos. Relatos apontam que alguns indivíduos se aproveitam do fluxo de trânsito para cometer pequenos furtos, como o roubo de celulares de motoristas e pedestres.

O posicionamento da Subprefeitura da Barra

O subprefeito da Barra, Recreio e Vargens, Raphael Lima, detalhou as ações de abordagem realizadas pelas equipes de assistência social:

“A Subprefeitura acompanha a maioria das ações de abordagem e acolhimento realizadas pela Secretaria de Assistência Social na nossa região. Desde o início de 2021, constatamos que grande parte das pessoas que dormem nas ruas da Barra da Tijuca possui residência, mas prefere ficar no bairro para auferir renda”, afirmou.

Lima ressaltou que a resistência ao abrigamento é o principal entrave. “Quase sempre os abordados recusam o acolhimento. Aqueles que aceitam são encaminhados para abrigos e inseridos em projetos específicos de empregabilidade, apoio na retirada de documentos e inclusão no Cadastro Único”, concluiu.

Em 2011, o então prefeito Eduardo Paes visitou uma unidade de acolhimento a pessoas em situação de rua, em Paciência, Zona Oeste.

O Cadastro Único (CadÚnico), coordenado pelo Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, é a porta de entrada para mais de 30 programas federais, como o Bolsa Família. O instrumento permite que os governos federal, estadual e municipal identifiquem os núcleos familiares em situação de pobreza e extrema pobreza para direcionar as políticas públicas de assistência.

Paes conversou com os moradores do abrigo, durante visita.

Complexidade em Jacarepaguá

Jacarepaguá enfrenta um cenário igualmente complexo. Um dos pontos mais sensíveis da região fica na saída da Cidade de Deus, no acesso à Linha Amarela, onde há uma concentração expressiva de dependentes químicos.

A Subprefeitura de Jacarepaguá informou que realiza ações contínuas de abordagem no local, mas destacou que a legislação brasileira não permite o acolhimento compulsório. A subprefeita Talita Galhardo explicou que atua em conjunto com a Secretaria Municipal de Assistência Social (SMAS) oferecendo encaminhamento para as Unidades de Reinserção Social (URS).

Trator da Comlurb retirando o lixo deixado pelos moradores de rua e usuários de drogas.

“Atualmente, a Prefeitura possui vagas em URS com camas, banheiros, quatro refeições diárias e suporte técnico, porém muitos indivíduos recusam a oferta. O ideal é que a população não distribua 'quentinhas' nas ruas, pois isso estimula a permanência deles no local. Sugiro que os altruístas façam suas doações em locais institucionais, como abrigos e igrejas”, orientou Talita.

Ordenamento urbano, segurança e conflitos territoriais

Além da vulnerabilidade social, a Zona Oeste sofre o impacto indireto da disputa territorial entre facções criminosas e milícias. A Estrada do Urubu, tradicional rota alternativa entre a Estrada dos Bandeirantes e a Barra da Tijuca para fugir do trânsito, teve o fluxo afetado pelo avanço do tráfico de drogas, transformando-se em um ponto de consumo de crack semelhante ao viaduto da Cidade de Deus. A degradação dessas vias de ligação preocupa moradores pelo risco de expansão do problema para o miolo da Barra.

Paralelamente, moradores da Barra utilizaram as redes sociais para denunciar uma suposta invasão em uma Área de Proteção Ambiental (APA) situada entre a Praia da Reserva e o Condomínio Mundo Novo. Segundo os relatos, o espaço estaria sendo desmatado para a construção de barracos, e moradores teriam sido intimidados por cães de guarda ao tentarem fiscalizar o local.

Acionada, a Prefeitura do Rio — por meio da Subprefeitura da Barra e da Secretaria Municipal de Ambiente e Clima — enviou uma equipe de fiscalização ao local. No entanto, os agentes não constataram crime ambiental ou irregularidade expansionista. De acordo com o município, as habitações pertencem a um grupo familiar que reside no terreno, inserido no Parque Natural Municipal de Marapendi, há pelo menos 30 anos, sem indícios de novos desmatamentos na área vistoriada.