Por: Clara Santa Rosa

Todos os dias, moradores e visitantes da Barra da Tijuca atravessam ruas e avenidas cujos nomes se tornaram parte da rotina urbana. Entretanto, poucos conhecem as histórias das mulheres que essas placas homenageiam. Em celebração ao Dia Internacional da Mulher, esta reportagem revisita trajetórias femininas que vão da arte à política, da educação à cultura, revelando personagens fundamentais da história do Rio de Janeiro e do Brasil que permanecem inscritas no mapa da Barra, ainda que muitas vezes ausentes da memória coletiva.

 

Rua Niomar Moniz Sodré Bittencourt:

Niomar Moniz Sodré Bittencourt foi uma das figuras mais decisivas da cultura, da imprensa e da resistência política no Brasil do século XX. Jornalista, gestora cultural e mecenas, Niomar transformou o jornalismo e as artes visuais em um dos períodos mais autoritários da história do país.

Niomar Moniz Sodré Bittencourt  editando o jornal Correio da Manhã| Reprodução: Arquivo

 

Nascida em Salvador, em 1916, e criada no Rio de Janeiro, Niomar cresceu em um ambiente intelectual e político por conta de seu pai, deputado estadual da Bahia. Casou-se com Paulo Bittencourt, proprietário do Correio da Manhã, e, após a morte do marido em 1963, assumiu a direção do jornal, tornando-se a primeira mulher a comandar um grande jornal diário no Brasil. À frente do Correio, adotou uma postura editorial firme e corajosa ao apoiar a deposição de João Goulart, mas rompeu publicamente com o regime militar ao perceber a escalada autoritária, posicionando o jornal como um dos principais focos de oposição civil à ditadura.

A escolha de Niomar teve um custo alto. O jornal sofreu censura sistemática, perseguição econômica, boicotes publicitários e intervenções diretas do Estado. Niomar foi presa duas vezes, em 1969, submetida a interrogatórios e afastada da direção do jornal. O Correio da Manhã acabou sendo asfixiado financeiramente e deixou de circular em 1974.

Paralelamente ao jornalismo, Niomar teve atuação absolutamente central nas artes. Foi uma das fundadoras e principal dirigente do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, idealizado como um espaço aberto à experimentação, à vanguarda e ao pensamento crítico. Sob sua liderança, o MAM-Rio consolidou-se como um dos principais centros de arte moderna da América Latina, acolhendo artistas, exposições e debates que redefiniram o panorama cultural brasileiro.

Sua atuação cultural também foi política. Defender a liberdade artística, a circulação de ideias e o pensamento moderno era, naquela época, um gesto de resistência. Niomar acreditava que cultura e democracia eram inseparáveis, e pagou pessoalmente por essa convicção.

Niomar Muniz Sodré Bittencourt morreu em 2003, no Rio de Janeiro. Entretanto, seu legado permanece vivo na história da imprensa brasileira, na consolidação das instituições culturais do país e na memória da luta civil contra a ditadura. Ter seu nome numa rua da Barra da Tijuca não é apenas uma homenagem, é um marco simbólico que inscreve no espaço urbano a trajetória de uma mulher que enfrentou o poder, defendeu a liberdade de expressão e fez da cultura um ato político. Uma mulher que entrou para a história por fazer da sua própria trajetória um ato político.

 

Rua Georgina de Albuquerque: 

Georgina de Albuquerque foi uma pintora, professora e uma das figuras centrais do modernismo brasileiro, com papel pioneiro na valorização da mulher nas artes no início do século XX. Ela é especialmente conhecida por ter sido a primeira mulher a representar a Independência do Brasil na pintura histórica, com a obra Sessão do Conselho de Estado (1922). Diferente da visão heroica e masculina tradicional, Georgina colocou a imperatriz Maria Leopoldina no centro da decisão política, deslocando o protagonismo histórico para uma mulher, um gesto simbólico e político muito forte para a época.

Sessão do Conselho de Estado (1922) | Reprodução: Enciclopédia Itaú Cultural

 

Além da produção artística, Georgina teve atuação decisiva na formação de novas gerações de artistas, abrindo caminhos institucionais para mulheres no circuito das artes visuais. O nome dela numa rua da Barra da Tijuca dialoga diretamente com arte, educação e reescrita da história a partir de uma perspectiva feminina.

 

Rua Rosa Tibúrcia: 

Rosa Tibúrcia da Conceição era filha de escravos alforriados. Pertencia à Escola de Samba da Mangueira, morro onde morava. Nasceu em 1880, em Navegantes (SC) e faleceu em 1967, no Rio de Janeiro. Rosa foi uma figura popular, lembrada pela tradição oral. Ela teria sido uma mulher negra, livre, conhecida na cidade por sua forte personalidade e circulação nos espaços públicos. 

Rosa Tibúrcia aparece como exceção nesta reportagem, uma vez que todas as outras reconhecidas com seus nomes nas ruas da Barra são mulheres brancas de elite. A presença de uma mulher negra, sem título, sem obra registrada e sem lugar institucional na memória urbana representa a discrepância produzida pela interseccionalidade entre gênero e raça no Brasil. Rosa representa a cultura do samba e a presença viva de mulheres negras que constroem o Rio de Janeiro  todos os dias.

 

Avenida Alda Garrido: 

Alda Garrido foi uma atriz, comediante e diretora teatral brasileira, reconhecida como uma das grandes pioneiras do humor feminino no Brasil. Nascida no Rio de Janeiro, em 1927, Alda construiu uma carreira marcada pela crítica social feita com ironia e inteligência, num tempo em que o humor era quase totalmente dominado por homens. Seu trabalho frequentemente abordava o cotidiano da mulher brasileira, expondo machismo, hipocrisias sociais e desigualdades com linguagem popular e acessível.

Reprodução: Arquivo

 

Além de artista, Alda Garrido teve atuação política. Foi vereadora no Rio de Janeiro e utilizou do espaço institucional para defender cultura, direitos das mulheres e políticas públicas para as artes. Dar seu nome a uma avenida tão importante na Barra da Tijuca é reconhecer uma mulher que ocupou o palco, a política e o riso como ferramentas de transformação social.

 

 

Rua Rosalina Brand: 

Rosalina Brand foi uma engenheira civil brasileira, com trajetória de enorme relevância em um campo historicamente masculino. Formou-se pela Escola Nacional de Engenharia do Rio de Janeiro e realizou um curso de aperfeiçoamento na França, a convite do Governo Francês, no Laboratoire National. Rosalina também teve atuação institucional de destaque ao exercer o cargo de presidente do CREA/RJ, rompendo barreiras de gênero na engenharia e na representação profissional. 

Rosalina Brand quebra o padrão do apagamento, não é uma mulher lembrada apenas por vínculos familiares ou atuação “permitida”, mas por competência técnica, liderança e ocupação de espaços de poder. 

 

Rua Ivone Cavaleiro:

Ivone Cavaleiro foi pintora e retratista do século XX, filha do artista francês Eliseu Visconti, com quem aprendeu pintura desde cedo. Nascida em 1901, na França, construiu carreira no Brasil, participando de diversos Salões Nacionais de Belas Artes. Casou-se com o também pintor Henrique Cavalleiro e manteve produção contínua em pintura, retrato e artes decorativas. Faleceu em 1965, no Rio de Janeiro. 

 

 

Rua Heloísa Alberto Torres:

Heloísa Alberto Torres foi uma antropóloga, pesquisadora e gestora cultural brasileira, com trajetória sólida e amplamente documentada. Nascida no Rio de Janeiro, em 1895, Heloísa construiu carreira em um campo então quase exclusivamente masculino, tornando-se uma das figuras centrais da consolidação da antropologia no Brasil.

Filha do político e intelectual Alberto Torres, cresceu em um ambiente marcado pelo debate público e pela reflexão sobre a formação do país. Ingressou no Museu Nacional, onde desenvolveu pesquisas nas áreas de antropologia, etnologia e arqueologia, com especial atenção aos povos indígenas brasileiros. Em 1938, tornou-se diretora do Museu Nacional, sendo a primeira mulher a ocupar o cargo, posição que manteve por mais de uma década. 

Reprodução: Arquivo

 

Heloísa teve atuação institucional concreta, liderança reconhecida e produção intelectual consistente. Ainda assim, seu nome raramente circula fora dos círculos especializados, o que revela como mesmo mulheres que ocuparam espaços formais de poder científico podem ser progressivamente apagadas da memória coletiva.

 

 Rua Sylvia Pozzano: 

Sylvia Pozzano foi escritora, tradutora e intelectual ligada ao intercâmbio cultural entre Brasil e Itália, com atuação sobretudo no campo da literatura, da tradução e da difusão cultural ao longo do século XX. Nascida na Itália, Sylvia imigrou para o Brasil, onde desenvolveu sua carreira intelectual.

Seu trabalho esteve concentrado na tradução de obras literárias, na escrita e na colaboração com ambientes culturais e educacionais. Sylvia integrou um grupo de mulheres que atuaram como mediadoras culturais, fundamentais para a circulação de ideias. Sua contribuição se deu no campo simbólico, da linguagem e da cultura, o que ajuda a explicar por que seu nome permaneceu mais no espaço urbano do que na memória pública ampla.

 

Avenida Raquel de Queiroz: 

Raquel de Queiroz foi escritora, jornalista, cronista e dramaturga, uma das figuras centrais da literatura brasileira do século XX. Nascida em Fortaleza, destacou-se ainda jovem com o romance O Quinze (1930), obra que a projetou nacionalmente ao retratar, com linguagem direta e rigor social, os efeitos da seca no Nordeste.

Reprodução: Instituto Moreira Salles

 

Ao longo da carreira, Raquel construiu uma produção literária sólida e diversa, transitando entre o romance, a crônica, o teatro e o jornalismo. Sua escrita combinou sensibilidade social, observação do cotidiano e força narrativa, consolidando-a como um dos grandes nomes do regionalismo brasileiro, sem nunca ficar restrita a ele.

Em 1977, tornou-se a primeira mulher a ingressar na Academia Brasileira de Letras, rompendo uma barreira simbólica de quase oito décadas de exclusão feminina na instituição. O feito marcou não apenas sua trajetória pessoal, mas a história da literatura brasileira como um todo. Raquel de Queiroz representa a mulher que entrou para o cânone.