| A desintoxicação lagunar |
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Já que o homem não tem a devida preocupação com o complexo lagunar de Jacarepaguá lançando diariamente algo em torno de 50 milhões de litros de esgoto diariamente, a natureza tem que se autolimpar de vez em quando. Foi o que aconteceu nos dias 14 e 15 de agosto ( sábado e domingo) com a entrada de uma forte frente fria trazendo ventos e chuva. A chuva lavou a sujeira da cidade levando tudo para as lagoas e depois para o mar. A novidade foi o vento forte e constante que soprou por dois dias seguidos sobre o espelho d'água lagunar. Tal fenomeno revolveu a camada de lodo no fundo da lagoa. O turbilhonamento liberou parte do gás sulfídrico preso no lodo organico e que é produzido pela decomposição da matéria organicado esgoto que foi se acumulando ao longo de mais de 30 anos de descaso.
A liberação do gás sulfídrico do lodo submerso fez com que escapasse pela lamina d'água até a superfice contaminando o ar com cheiro de ovo podre e causando náuseas e vomitos para muitos moradores da Barra e Itanhangá. Durante a subida à superfície , o gás sulfídrico que é ávido por oxigênio dissolvido na coluna d'água consome rapidamente o pouco que ainda resta, matando os peixes e crustáceos por sufocamento. Após 48 horas da morte destes organismos eles voltam para a superfície boiando e promovendo um cenário de desolação. Imaginem que desta vez nem os resistentes barrigudinhos escaparam, tamanho foi o volume dos gases tóxicos liberados.
Apesar deste quadro caótico da qualidade d'água lagunar nem tud ofoi ruim. Primeiro, o evento alertou à sociedade que a situação das lagoas não melhorou, apenas piora com velocidade menor devido a instalação do emissário e a estação de tratamento da CEDAE. Quanto mais rápido os condomínios que podem se interligar com a rede publica de esgoto assim o fizerem, tanto mais rápido chegaremos ao ponto de início da reversão do processo de degradação ambiental.Segundo benefício foi que a natureza promoveu para si mesma uma operação de desintoxicação lagunar através dos ventos que liberaram um subproduto altamente tóxico da decomposição anaeróbia que é o gás sulfídrico. Por analogia seria como promover a limpeza de uma inflamação sufocada, expremendo para fora um veneno inoculado por um inseto peçonhento.
É duro admitir, mas no fundo somos este escorpião que inocula veneno nas belas lagoas da Barra, todos os dias e de forma gradual e difusa. Para piorar ainda,pouco fazemos de efetivo para salva-las. Já seria de muita ajuda se procurassemos agir sabendo do nosso síndico se os esgotos das nossas casas e apartamentos já estão interligados com a rede publica. Afinal todos sabemos que a sociedade não condições técnicas adequadas para promover e acompanhar ocomplexo tratamento dos esgotos que produzimos. Enfim, temos ou não este compromisso ético com a natureza e com a saúde de nossos entes queridos? Este seria um bom ponto para reflexão e ação após este aviso que a natureza nos proporcionou.
Prof. Dr. David Zee
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