Com entrada franca, a Rio Pride Cup 2022 reuniu clubes de quatro estados em um evento que uniu esporte, acolhimento e ato político na Zona Oeste do Rio
Por Lucas Costa
O Velódromo do Parque Olímpico, na Barra da Tijuca, foi o palco da Rio Pride Cup 2022, campeonato de handebol voltado para clubes LGBTQIAP+. Com entrada franca e aberto ao público, o torneio reuniu equipes de quatro estados na disputa pelo título, além de levantar a bandeira da inclusão e da ocupação de espaços no esporte de alto rendimento.
Em sua segunda edição, a competição contou com a participação de seis clubes, divididos em oito equipes. O Rio de Janeiro foi representado pelo Lendários — clube organizador do evento, que inscreveu os times "Gloria Groove" e "Pabllo Vittar" — e pelos Alligaytors. De São Paulo vieram as equipes Fadas e Bulls; de Minas Gerais, os elencos do Bharbixas e Monas da Mata. Completo a chave, o time Vale viajou de Goiânia direto para a capital fluminense. A meta da organização é expandir o número de modalidades e agremiações nas próximas edições.
Para além das quadras, a Rio Pride Cup consolida-se como um ato político. O objetivo é oferecer um ambiente seguro onde atletas LGBTQIAP+ possam competir em alto nível, evidenciando questões sociais que permeiam a existência e a resistência dessa população.
Atleta do Lendários, Eduardo Bianchi destacou a relevância de um torneio com esse recorte:
“Os clubes contam com muita diversidade dentro e fora de quadra. Os atletas jogam com total liberdade, longe de preconceitos estruturais frequentemente marcados pela ideia de virilidade no esporte. É incrível ocupar os mesmos espaços por onde já passaram atletas olímpicos. Os campeonatos LGBTQIAP+ existem para mostrar a diversidade humana e dar visibilidade à causa esportiva e sociopolítica.”
Bianchi relembrou que o campeonato nasceu de forma despretensiosa, logo após o período de isolamento social. “Surgiu com a ideia de ser apenas um amistoso. Tínhamos saído da pandemia e queríamos jogar. Entramos em contato com o grupo de amigos do Fadas, de São Paulo, que já estava treinando, e sugerimos o confronto no Rio. Busquei o apoio da Secretaria Municipal de Esporte, e o secretário Guilherme Schleder abraçou o projeto. O que seria uma partida única cresceu e virou um campeonato. Este ano, com dois dias de competição e mais clubes, a estrutura ficou ainda maior”, relatou.
Inclusão contra o preconceito estrutural
O ponta-esquerda Alison Neves ressaltou o papel do Lendários — que também possui equipe de vôlei — no resgate de atletas que haviam abandonado a prática esportiva por discriminação:
“Muitos LGBTs deixam de praticar esportes porque se sentem desconfortáveis ou hostilizados em ambientes tradicionais. Eu mesmo passei a vida inteira travado porque, quando entrava em quadra, ouvia deboches e xingamentos. O Lendários me acolheu e aqui aprendi a jogar handebol. Hoje me sinto seguro para competir. Esse espírito de acolhimento e celebração foi levado para a Rio Pride Cup. Há a disputa, claro, mas a prioridade é conquistar espaços, sermos vistos e ouvidos.”
Questionado sobre as barreiras do preconceito no esporte, Bianchi pontuou que a discriminação reflete o cenário cultural do país. “O esporte em si não é LGBTfóbico, mas as estruturas são. O machismo e a homofobia sistêmicos reverberam no handebol, no futebol e no vôlei. Existe uma falsa perspectiva de que a virilidade esportiva pertence apenas aos heterossexuais cisgêneros. Por isso, ter atletas assumidos em grandes clubes é fundamental para gerar representatividade e identidade”, explicou o jogador.
Prospecção internacional e balanço final
Pensando no futuro, o armador-direito do Lendários, Raphael Carneiro, projeta a expansão do torneio nacionalmente. “Este ano já tivemos três equipes novas que não participaram da primeira edição. Sabemos da existência de outros projetos pelo Brasil e queremos trazê-los para somar conosco.”
Alison Neves revelou, inclusive, o interesse estrangeiro na competição carioca: “Há times internacionais de olho na Rio Pride Cup. Uma equipe da Espanha tomou conhecimento do campeonato e, embora não tenha conseguido vir este ano, demonstrou forte interesse em participar da próxima edição”.
Embora estivesse na organização, o Lendários terminou fora do pódio. A equipe da casa perdeu a disputa pela medalha de bronze para os compatriotas fluminenses do Alligaytors. Apesar do resultado, a auxiliar técnica Monique Corte avaliou a temporada de forma positiva.
“Nós crescemos na derrota e na quebra de expectativa. O esporte ensina muito para a vida. Conseguimos colocar duas equipes na competição, o que mostra uma evolução absurda. O nosso segundo time contou com muitas pessoas que estavam afastadas das quadras há anos e que ainda estão em processo de construção técnica. Vamos corrigir as falhas e planejar o próximo ano para virmos ainda mais fortes”, analisou Monique.
A medalha de prata ficou com os paulistas do Bulls, enquanto o favoritismo foi confirmado pelos mineiros do Bharbixas, que conquistaram o ouro e o título de campeões da Rio Pride Cup 2022.
O evento contou com o apoio oficial da Secretaria Municipal de Esporte, da Coordenadoria Executiva da Diversidade Sexual da Prefeitura do Rio de Janeiro e da Confederação Brasileira de Handebol (CBHB).