Renomado cantor lança "Rough and Rowdy Ways", seu 39º álbum da carreira

Por Affonso Nunes

“Rough and Rowdy Ways”, 39º álbum da carreira de Bob Dylan, justifica o status de um dos discos mais aguardados do ano. Sem gravar inéditas desde “Tempest” (2012) e com um Nobel de Literatura (ainda possui prêmios Grammy e Emmy), o Bardo faz jus à sua verve de contador de histórias. Do alto de seus 79 anos de vida, geralmente olhando adiante de seu tempo, o poeta desta vez mira o passado – não exatamente para a última década, mas para várias delas atrás – para recontar a história e, assim, indicar aos que estão vindo como o futuro pode se revelar.

Dono de seu tempo e de sua linguagem, Bob Dylan passou boa parte da última década revirando o baú e deu vida a projetos ora esquecidos como a série Bootleg. Talvez esse mergulho interno tenha sido a energia propulsora para “Rough and Rowdy Ways”. No melhor estilo de romance biográfico ou de um documentário, o álbum está repleto de referências explícitas a personagens, filmes, obras literárias e debates políticos e de generalidades que definiram a segunda metade do século 20, a era da indústria cultural, do advento do pop e do rock and roll, legítimas pedras de toque da civilização ocidental.

Concebido como um álbum duplo, “Rough and Rowdy Ways” tem como peça central ou grand finale a já conhecida “Murder Most Foul”, lançada como single em março. A faixa de 16 minutos e 55 segundos detalha o assassinato do presidente americano John F. Kennedy, em 1963, as teorias conspiratórias sobre este evento dramático e traça um panorama da década que deságua na contracultura, que faz nascer Woodstock.

Mas é preciso voltar ao começo do álbum, seu lado A. Há um pavor iminente em torno de “I Contain Multitudes” e de “False Prophet”, as duas faixas que abrem o disco. Ele se compara a Anne Frank e Indiana Jones, revela ser pintor e poeta e admite estar inquieto, irritadiço, implacável em “I Contain Multitudes”. A atmosfera é sombria, impossível não elegê-la como uma trilha sonora desses tempos pandêmicos. “Another day of anger, bitterness and doubt” (“Outro dia de raiva, amargura e dúvida”), canta o Bardo em “False Prophef ” resumindo num único verso o estado de espírito em tempos de isolamento social acrescidos de discriminação racial e da desumanidade em torno de lideranças como Donald Trump.

Ácido, crítico e romântico a seu modo, este é Robert Zimmerman que tomou seu sobrenome artístico de outro mestre da poesia em língua inglesa, Dylan Thomas. Encare “Rough and Rowdy Ways” como um romance, deixe-se levar pela narrativa dylanesca, aprecie a paisagem sonora que nos conduz por uma estrada no meio da infinitude do deserto americano. O Bardo nos enfeitiça com as palavras de um xamã. Na sombria “My Own Version of You”, Dylan nos pergunta o que é ser ou não ser” Como responder à charada?

Bob Dylan sempre foi assim. Desde os anos 1960, experimentou várias linguagens, musicais ou não, do folk ao rock, antenado ao blues, mas sempre foi um menestrel. O retrato cruel da sociedade a que chegamos, a morte transmitida por redes de TV soam ainda mais graves sob sua voz cada vez mais rouca e temperada pela sabedoria que o tempo traz. Na balada “I’ve Made Up My Mind to Give Myself to You”, o poeta revela também existir sabedoria e aprendizado no amor. Fica clarividente que amar não é um dilema, mas um pacto entre pessoas que se dedicam a tal.

“As letras são reais, tangíveis, não são metáforas”, disse o Bardo numa entrevista recente ao New York Times. Mesmo assim, em se tratando de Bob Dylan, é preciso ir além das aparências.

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