De "oitava maravilha do mundo" ao abandono: os bastidores de crises, acidentes e a disputa judicial que decretou o fim do icônico complexo de Vargem Grande

 

 

 

Por Lucas Costa

A proximidade do verão carioca costuma trazer consigo uma forte onda de nostalgia para os moradores e visitantes da Cidade Maravilhosa. No cenário do entretenimento do Rio de Janeiro, uma lembrança imponente ainda se destaca: o saudoso Rio Water Planet. Localizado em Vargem Grande, o oásis aquático contava com mais de 40 atrações — de tobogãs vertiginosos a piscinas de ondas e rios preguiçosos —, atraindo de famílias a jovens em busca de adrenalina. No entanto, o destino do complexo tomou um rumo definitivo em 2018, quando uma ordem de despejo judicial encerrou de vez as suas atividades.

O auge da "oitava maravilha"

Fundado em 1998 pelo empresário Cleiton Menezes, o Rio Water Planet ocupava uma extensa área de 400 mil metros quadrados aos pés do Maciço da Pedra Branca. Com infraestrutura robusta, que incluía um complexo infantil dedicado a crianças de 2 a 6 anos, o local rapidamente conquistou o título de maior parque aquático da América Latina e adotou o ambicioso slogan de "a oitava maravilha do mundo". O sucesso de público, contudo, passou a dividir espaço com episódios de negligência e impasses legais.

Foto: Divulgação

Falha e interdição no teleférico

O primeiro grande abalo na reputação do parque ocorreu em 1º de fevereiro de 2001. Com cerca de 3.500 visitantes no local, um acidente no teleférico deixou dez pessoas feridas. Vistorias preliminares da Defesa Civil Municipal constataram que o cabo de aço do equipamento havia saído da roldana de sustentação, no topo da estrutura, a cerca de seis metros de altura. O descompasso provocou a queda de 12 cadeiras duplas.

À época, a Defesa Civil apontou erro na operação e revelou que a última vistoria no aparelho havia ocorrido dois anos antes do incidente. Por outro lado, a direção do parque alegou que dois rapazes balançavam os assentos, travando uma das cadeiras na torre e acionando um sistema de descida programada de emergência. Na ocasião, o parque seguiu funcionando por algumas horas após o ocorrido, sendo interditado no fim do dia e multado pelo município em R$ 283,00.

Acidente fatal e denúncias de venda casada

Anos mais tarde, em 26 de março de 2011, o complexo voltou às páginas policiais devido a uma fatalidade. O eletricista Felipe Gonçalves e Silva, de 33 anos, funcionário da empresa há quase uma década, morreu após receber uma descarga elétrica enquanto realizava uma manutenção de rotina em um refletor, na laje de uma das lanchonetes. O socorro do Corpo de Bombeiros enfrentou dificuldades de acesso devido à altura da laje e, apesar das tentativas de reanimação, a vítima sofreu uma parada cardíaca no local. Um auxiliar que acompanhava Felipe não se feriu.

Em 2015, os problemas migraram para a esfera dos direitos do consumidor. O Procon Carioca e o Procon Estadual notificaram e autuaram o estabelecimento pela prática abusiva de "venda casada". O parque realizava revistas vexatórias nas mochilas dos clientes e proibia a entrada de alimentos e bebidas externos.

A estratégia fiscalizatória dos órgãos de defesa concluiu que, por passarem muitas horas dentro do complexo, as pessoas eram forçadas a consumir exclusivamente os produtos internos, utilizando cartões de consumo do próprio parque. Na ocasião, estipulou-se que as multas pelo descumprimento do Código de Defesa do Consumidor (CDC) poderiam chegar a patamares milionários.

 


Foto: Divulgação

O despejo e o silêncio definitivo

O golpe final no Rio Water Planet não veio de sua operação interna, mas de uma batalha imobiliária nos tribunais. A 3ª Vara Cível da Barra da Tijuca determinou o despejo do parque em uma ação movida pelos proprietários do terreno contra os administradores do complexo. De acordo com a defesa dos donos da terra, o contrato de locação havia expirado em 2014, mas o parque continuou ocupando a área de forma irregular, acumulando uma inadimplência de aluguéis estimados em R$ 150 mil mensais.

O mandado de despejo foi cumprido em 16 de agosto de 2018. Sem margem para recursos operacionais, o Rio Water Planet encerrou definitivamente suas atividades no dia 4 de outubro do mesmo ano.

Embora o mercado de entretenimento tenha ventilado rumores sobre uma possível reabertura ou venda dos ativos em 2021, o imenso terreno em Vargem Grande permanece em absoluto silêncio. Hoje, com suas piscinas vazias e estruturas desgastadas pelo tempo, o esqueleto do parque repousa como um monumento melancólico de uma era de ouro que ficou no passado.