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Por João Victor Ferreira

Filmes de terror nunca foram o grande forte entre os gêneros do cinema brasileiro, certo? O último longa-metragem de Dennison Ramalho - Morto não fala - veio aqui para provar o contrário, fazendo jus ao padrão de produção dos grandes thrillers internacionais e ainda colocando a “cara brasileira” no gênero.

Stênio (Daniel de Oliveira) é um legista do IML que apresenta a capacidade paranormal de conversar com os mortos. Esse “presente” acaba se tornando uma maldição ou até um castigo, a partir do momento que Stênio começa a mexer com o sobrenatural.

O terror, mais do que qualquer outro gênero, tem a incrível capacidade de ser matéria-prima para simbolizar um problema ou mal-estar em que uma sociedade vive. Aqui, temos uma fábula moral - mas nem um pouco moralista - que envolve traição, culpa e hipocrisia, no maior estilo Nelson Rodrigues.

Morto não fala se equipara com a produção de diversos filmes de terror internacionais. O que temos aqui é um trabalho impecável de maquiagem e efeitos especiais dos mortos, trazendo uma nova aura para eles: eles se tornam uma mescla de espíritos malignos e zumbis. A escatologia do filme, além de bem feita, ajuda a construir o clima de morbidez e carnificina que o diretor quer passar, além de representar o estado de espírito dos seus personagens, principalmente do protagonista. A tensão do filme é crescente e a direção sabe dosar isso muito bem com o grau de violência gráfica que o filme tem.

O tom que Dennison quer passar aqui se assemelha muito ao Romantismo do século XVIII e XIX, na literatura. Há aqui cenas que mesclam a morbidez e putrefação dos corpos em decomposição, com a deteriorização do amor dos personagens. Amor e morte andam lado a lado, ambos sendo comparados nesse mal-estar. Isso que constrói a história dessa fábula. A composição dos planos também faz referência ao Romantismo nas artes plásticas, com um jogo de luz e sombra muito bem definido, para criar tensão e representar esse desconforto que Stênio vive: em casa e no trabalho.

Além da ótima interpretação de Daniel de Oliveira, cabe também uma menção à Fabíula Nascimento, que interpreta uma espécie de Medéia - vinda diretamente das tragédias gregas - das periferias de São Paulo: um espírito de vingança moral. A falta de escrúpulos e polidez da interpretação da atriz combina, em contraste, com a passividade de Daniel, gerando um casal completamente disfuncional e que serve bem à trama. Bianca Comparato também se destaca aqui como o arquétipo de pureza e sanidade que um filme de terror precisa ter, em meio à degradação moral que os personagens vivem.

Morto não fala é um excelente filme de gênero nacional. Boa direção, bom roteiro, bons efeitos práticos. O filme não é trash, e essa “seriedade” pode certamente ajudá-lo a alcançar o gosto até do público internacional. Afinal, o público de terror pode ser nichado, mas ainda assim, muito fiel.

Nota: 9