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Por João Victor Ferreira

Após os eventos macabros de “O Iluminado”, Danny Torrance (Ewan McGregor) é agora um homem adulto, ainda atormentado pelos demônios do seu passado. Ele encontra Aba (Kyleigh Curran), uma garota com o mesmo dom de iluminação que Danny tem, só que muito mais forte. Cabe a Dan proteger Aba de um culto estranho que caça e mata indivíduos portadores dessa força sobrenatural.

A primeira mudança que o diretor Mike Flanagan propõe é de aproximar essa história aos romances de King - algo que Kubrick não levou tanto em consideração, já que o seu filme funciona distante do material original. O filme não é tão sugestivo como “O Iluminado”, apostando em uma fisicalidade sobrenatural mais palpável. De modo algum isso se apresenta como demérito, já que a longa duração do filme nos dá tempo de absorver tudo isso, não sendo rápido como um trem fantasma. A duração em alguns momentos incha o filme, confundindo o seu tom: uma história intimista, uma história sobrenatural, uma história de “caça entre gato e rato". A direção consegue se sustentar sem tentar copiar o trabalho pregresso de Kubrick, de modo que os planos e conceitos repetidos do primeiro filme, soam mais como homenagem do que cópia. O diretor inclusive cria algumas soluções imagéticas muito interessantes na representação do sobrenatural, diferente do primeiro filme.

A alma de "Doutor Sono" é a interpretação de Ewan McGregor que passa muito bem a fisicalidade e os traumas de um adulto quebrado e assombrado pelo seu passado. A questão do alcoolismo gera um paralelismo com as atitudes "herdadas" de Jack Torrance e ajudam muito bem a construir a interpretação do ator, além aprofundar o roteiro. O filme funciona muito bem "dentro da cabeça de Danny". O segmento do culto e suas motivações não são lá muito boas, embora a personagem de Rebecca Ferguson redima tudo isso. A personagem jovem de Kyleigh Curran funciona bem ao lado de Danny nessa jornada macabra. O que mais pode gerar controvérsia entre o público é o terceiro ato que não abre mão das referências ao filme de 1980. Como ferramenta que se propõe a fechar e amarrar os dois filmes: funciona bem. Como segmento do roteiro único desse filme, não parece tão bem justificado: soa mais como uma "forçação de barra".

Doutor Sono não é melhor do que O Iluminado e é bom que o filme não se proponha a isso. É uma continuação devida para a história de Danny e consegue achar um meio termo entre uma adaptação mais fiel aos livros e as referências ao seu antecessor de quase 40 anos atrás.

Nota: 7,5