A equipe do JORNAL DA BARRA realizou uma matéria especial que escancara o dia a dia dos passageiros do BRT, confira essa reportagem exclusiva

Por Guilherme Cosenza e Ive Ribeiro *

Inaugurado em 2012, o modal BRT, que chegou para revolucionar o transporte público no Rio de Janeiro, hoje, sete anos mais tarde, acumula falhas e transforma viagens em verdadeiras odisseias para os usuários. Portas que não fecham, monitores quebrados e ares-condicionados que não funcionam somam-se à falta de educação de parcela da população que se aproveita da ausência de fiscalização e da impunidade para usar o ônibus sem pagar. Quem sofre? Aqueles que necessitam ou desejam usar meio de transporte.

Para tentar resolver o problema, a prefeitura do Rio anunciou uma intervenção no consórcio BRT, no dia 2 de fevereiro. Na época, Crivella disse que a medida foi tomada para equilibrar o ‘tripé que forma o sistema de transporte do Rio de Janeiro’: clientes, empresas e a prefeitura. O interventor é o ex-deputado Luiz Alfredo Salomão.

“Estamos com problemas nos BRT’s, sobretudo na Zona Oeste. Na Avenida Cesário de Melo, há várias estações sem operar. Os BRT’s estão superlotados, há queixas da população sobre superlotação também nos terminais, diminuição da frota e demora nos horários. Desde o começo do nosso governo, temos procurado, junto aos consórcios que operam o sistema BRT, encontrar uma solução, mas não conseguimos. O que restou para nós foi fazer a intervenção”, disse Crivella na ocasião.

Junto com a intervenção veio também o aumento da passagem, que passou de R$3,95 para R$4,05. Para os usuários, inclusive, essa foi a única mudança que de fato causou efeito no cotidiano da população, como relata o presidente da AMARosas (Associação dos Moradores do Parque das Rosas), Cléo Pagliosa, que costuma usar o transporte para ir até o metrô: “choque de ordem no BRT eu só vi pela televisão, porque ao vivo não vi nada, só desordem, como tudo na cidade. Eu sou usuário do BRT e vejo que os vidros estão quebrados, não existe o menor cuidado. Os ônibus estão esfacelados”.

População ainda tenta se adaptar ao espaço exclusivo para as mulheres

No dia 2 de maio os ônibus do BRT começaram a circular com um espaço exclusivo para as mulheres. A medida funciona entre os horários de 5h às 7h e das 17h às 20h. Nos veículos articulados, os últimos compartimentos são destinados às mulheres, já nos convencionais, os homens ficam na parte de trás e as mulheres, na frente.

A medida tenta minimizar casos de assédio contra as mulheres dentro do transporte. Em nossas viagens, a nossa equipe flagrou homens hostilizando mulheres que tentavam entrar no espaço que não havia exclusividade. Lembrando que não há nenhuma obrigatoriedade que impeça as mulheres de entrarem em qualquer setor do transporte.

Após a medida, alguns passageiros relataram que o transporte ficou ainda mais lotado, já que houve uma concentração de pessoas na parte da frente dos articulados. Além disso, em alguns casos há correria na hora de sair do ônibus, já que algumas das portas traseiras – local destinado às mulheres – não abrem corretamente.

Consórcio BRT culpa o poder público e vandalismo por más condições

Para o consórcio BRT, a empresa faz tudo o que está ao seu alcance para que o transporte seja de boa qualidade, mas a “ausência do poder público” faz com que alguns problemas não sejam solucionados: “há dois anos, tentamos alertar a prefeitura sobre a crise enfrentada pelo Sistema e causada pela falta de cumprimento da própria prefeitura do Rio às obrigações contratuais. Nesse período, oficializamos os diversos órgãos municipais sobre as condições precárias das pistas, que levam à degradação precoce da frota e impactam diretamente no bem-estar dos passageiros, além da falta de segurança provocada pela inoperância do poder concedente”, declarou o consórcio por meio de sua assessoria.

Ainda segundo a empresa, em outros países com o mesmo sistema de BRT, os articulados têm uma vida média útil de 20 anos, enquanto no Brasil, os ônibus duram apenas cinco. Isso graças as condições das pistas e da má fiscalização contra os vândalos. Dados da Fundação Getúlio Vargas mostram que no corredor Transoeste apenas 14% dos seus cerca de 110km de extensão apresentam pavimento em bom estado de conservação.

‘Lei do Calote’ está em vigor, mas evasões não param

Outro grave problema enfrentado pelos usuários está na segurança. Ou na falta dela. Números apontados pelo monitoramento do próprio BRT apontam que 74 mil pessoas viajam sem pagar por dia. Isso apesar da regulamentação da Lei 44.837 de 2 de agosto de 2018, chamada popularmente de “Lei do Calote”. Nela, está prevista a cobrança de uma multa de R$170 para quem adentrar o modal sem efetuar o pagamento e R$255 para reincidentes.

Para o consórcio, o vandalismo está diretamente ligado ao número de caloteiros e o prejuízo mensal por conta da insegurança chega a até R$ 1,4 milhões. A empresa ainda afirma que as forças de segurança deveriam resolver o problema. Por sua vez, a Guarda Municipal alega não ter efetivo o suficiente para a demanda. Já para a população restam as portas que ora não abrem, ora não fecham, os bancos quebrados e a sensação de andar em uma sauna ambulante.

Como diz o estudante Davi Muller, que considera as viagens uma ‘guerra diária’: “como se já não fosse ruim o suficiente o transporte estar superlotado, o ar condicionado não funciona e não existem janelas para circulação do ar”, relata o jovem de 22 anos que usa o transporte para transitar entre a Barra, Taquara e o Fundão.

O presidente da Associação Moradores do do Bairro do Recreio, Elvis Campos também fez um relato sobre o que muitos moradores da região têm passado ao andar no transporte: “o BRT está sempre lotado, os moradores do Recreio mal conseguem acessar, porque os ônibus vêm lotados. Eles estão correndo risco de vida diariamente. Tudo por culpa da má gestão”, disse Elvis, que também reclamou da má sinalização no modal e da falta de segurança: “a AMORE requer que as autoridades sejam mais presentes, ou então que até acabe com o BRT e troque pelo metrô, que é muito mais seguro”.

Máquinas quebradas

Problemas sobre rodas

Nossa equipe fez diversos trajetos dentro dos ônibus BRT para conferir os problemas enfrentados por seus usuários e encontramos diversas máquinas de autoatendimento com problemas. Algumas funcionando apenas na função dinheiro e outras simplesmente sem funcionar.

A estação Via Parque continha uma folha escrita à mão com os dizeres “Só Dinheiro”, enquanto a estação Metropolitano, tinha sua máquina quebrada nas duas funções. Esse fato, acaba trazendo um enorme transtorno ao passageiro, que precisa enfrentar a fila do guichê para poder fazer a sua recarga, que levaria apenas alguns minutos na máquina. Assim, comprovamos que em todas as estações que as máquinas não funcionam, o resultando final são as enormes filas em frente ao guichê.

Ruas destruídas

Problemas sobre rodas

Outro fator importante que a nossa reportagem encontrou é referente as pistas em diversos pontos do BRT. Embora a Barra e Recreio contenham o que pode se dizer, um bom asfalto em suas vias, o mesmo não acontecem para quem precisa ir para as estações após a estação do Recreio Shopping. O asfalto quebrado traz trepidações para quem está dentro do modal, além de ser perigoso e um prato cheio para causar acidentes.

Fica nítido também que o asfalto colocado, a partir daquele ponto do BRT Transoeste, não é forte o suficiente para o peso dos carros. Em fevereiro do ano passado, dois dos ônibus que fazem passagem pela via tiveram os pneus estourados por conta da buraqueira. Um na altura da Estação Recreio Shopping e outro na Estação Pontal, em frente ao condomínio Pontal Oceânico. O jogo de empurra entre o consórcio e a prefeitura ganha força em relação a esse tipo de manutenção, o que desanima qualquer usuário de ter melhoras no modal.

Mercado livre e depredação nas estações

Problemas sobre rodas

Nossa equipe também se deparou com um verdadeiro comércio irregular em diversas estações. Em Madureira quase já não há portas de vidros na principal estação do bairro e são vários os tipos de camelôs encontrados, vendendo desde de carregadores de celular, até os mais variados alimentos.

Porém, não é só no subúrbio que atualmente é encontrando esse tipo de comercio irregular e depredações. Partimos da estação no centro da Taquara e percorremos até a estação do Recreio Shopping, fazendo a baldeação na Alvorada. Pudemos averiguar que em todas as estações haviam ambulantes prontos para entrar nos modais ou ficar em pontos fixos vendendo seus produtos dentro da estação sem a menor preocupação em relação a qualquer tipo de represália que poderia sofrer. Assim, junto com a tranquilidade dos vendedores ambulantes, vem a sensação de insegurança da população que está à mercê de quem quiser invadir as estações, assim, junto com quem entra para vender seus produtos, entra também aquele que quer assaltar o usuário.

Tentativa Frustrada

Encontramos na estação do Recreio Shopping uma geladeira velha, pichada e suja com os dizeres “Biblioteca de Rua”. A ideia é uma homenagem a Professora Maria Lucia Barbosa e vide a colocação, pela a população de livros para serem lidos e devolvidos para o local, além da troca e colocação de novos exemplares para poder incentivar a população a leitura. Uma ideia brilhante para incentivar a todos uma boa leitura. Porém, ao abrir as portas da geladeira encontramos poucos livros, algumas provas de colégio deixadas por alunos, muitos livros com páginas faltando e um desleixo com o projeto. Uma ideia simples e de cunho social deixado de lado.

Estações sem luz

Há também o roubo desenfreado das luzes das estações entre a Pedro Corrêa até a Taquara. Basta passar à noite pela Avenida Bandeirantes para observar o breu das estações, fruto dos furtos das luzes de led e de dentro das estações que ocorrem. A polícia acaba não conseguindo fiscalizar todas as estações e o consórcio não possui seguranças privados em todas as estações para isso. O resultado é uma escuridão que se torna um prato cheio para todo tipo de criminalidade.

Especialista alerta sobre os riscos de doenças infectuosas e para pessoas com problemas de pressão

Problemas sobre rodas

Além do desconforto, as altas temperaturas dentro dos ônibus do BRT também podem causar sérios problemas de saúde para os usuários. Apesar de serem equipados com ares-condicionados, os articulados viajam extremamente quentes e sem circulação de ar, já que foram construídos sem a abertura de janelas, justamente para manter a temperatura, que deveria ser agradável. Em algumas viagens, os passageiros abrem a saída de ventilação na parte superior dos ônibus para tentar se refrescar. Em outros casos, até mesmo as portas são abertas pelas pessoas para que alguma corrente de vento possa entrar.

Para a Coordenadora Clínica do Serviço de Cirurgia Plástica da Santa Casa e professora da Pontífice Universidade Católica (PUC), Drª. Rita Azevedo de Paiva, o calor dentro dos ônibus é um grande facilitador para a transmissão e a proliferação de doenças infecciosas: “a aglomeração por si só aumenta a temperatura. Com muito calor, a chance é ainda maior de infecção por agentes infecciosos”, ela ainda explica que muitas doenças são transmitidas pelo suor ou por gotículas de saliva.

A médica também revela que além das doenças mais comuns, outras mais graves também podem ser transmitidas nestes ambientes quentes e cheios: “desde gripes até tuberculose, que é uma doença que está voltando aos consultórios”, alerta. Drª. Rita também aconselha que os passageiros lavem os olhos antes de os tocarem com as mãos após saírem dos ônibus: “a conjuntivite pode ser transmitida se você encostar no seu olho depois de algum contato com alguém infectado. Uma infinidade de doenças pode ser transmitida”.

“Um ambiente desse pode favorecer a pessoa ter uma crise hipertensiva”

Ficar muito tempo em pé, apertado e com calor pode ser bem complicado para idosos e pessoas portadoras de doenças que não são infecciosas, mas que sofrem de hipertensão ou facilidade para hipotensão: “no caso da hipotensão, ficar muito tempo de pé, pessoas que tem esse problema tendem a ter pressão baixa e desmaiar. Já para os hipertensos, o calor, somado à agitação e à aglomeração, com todo o stress gerado em um ambiente desse, pode favorecer a pessoa ter uma crise hipertensiva. Essas patologias podem ser agravadas nessas condições”, explicou.

A especialista ainda lamenta a dificuldade de prevenção no Brasil, e diz que todo transporte público deveria ter ar-condicionado. Ela lembra que em países asiáticos é costume que pessoas mais sensíveis utilizem máscaras de proteção em locais públicos. Outra boa dica que serve até mesmo para os saudáveis é andar com uma garrafinha d’água, para poder manter a hidratação em uma viagem longa e quente.

*Colaboraram com a reportagem: Alessandra Raposo, Gabriel Moses, Letícia Moura e Luiza Macedo