O avanço do coronavírus no Rio de Janeiro, o segundo estado com mais casos no país, mudou a dinâmica das ações policiais no estado

Por Júlia Barbon/ Folhapress

O avanço do coronavírus no Rio de Janeiro, o segundo estado com mais casos no país, mudou a dinâmica das ações policiais no estado. Não parece, porém, ter tido impacto até agora no alto número de tiroteios que aterrorizam os fluminenses.

É o que mostram dados não oficiais compilados por pesquisadores da Rede de Observatórios da Segurança, que no Rio está ligada à Universidade Cândido Mendes, e também pela plataforma colaborativa Fogo Cruzado. Essas informações não são divulgadas pelo governo.

As operações policiais no estado diminuíram conforme a preocupação com o vírus cresceu, dando lugar a ações voltadas ao combate à pandemia, segundo o levantamento da rede -que coleta os dados a partir da imprensa, grupos de mensagens e redes sociais de comunidades e polícias, sempre confirmando com mais de uma fonte.

Na primeira quinzena de março, foram contadas 58 operações (quando um grupo de policiais é destacado a um local para cumprir um objetivo) e 81 patrulhamentos (ações cotidianas de ronda ou "baseamento"). Na segunda quinzena, foram 15 operações e 41 patrulhamentos.

O que divide os dois períodos é o estado de emergência decretado pelo governador Wilson Witzel (PSC) no dia 16, que determinou o fechamento de grande parte dos estabelecimentos comerciais e serviços e restringiu a circulação de pessoas.

A partir daí, a polícia começou a exercer funções como o controle do embarque em trens e metrôs, limitação da entrada de ônibus interestaduais, averiguação de denúncias sobre venda de álcool em gel adulterado etc.

"Foi uma grande novidade. Vínhamos tendo um número muito grande de operações e mortes em 2018 com a intervenção federal, depois em 2019 e no início de 2020. Aquela coisa de a PM chegar com o caveirão, ser recebida a tiros, trocar tiros e sair foi extremamente reduzida após a pandemia", diz a socióloga Silvia Ramos, coordenadora da Rede de Observatórios da Segurança.

A diminuição no número de operações fez cair o número de mortos durante essas incursões: foram 15 vítimas em todo o mês de março deste ano, ante 36 no mesmo mês do ano passado. É provável que os índices criminais no estado também tenham se reduzido com a pandemia, mas eles ainda não foram divulgados pelo governo.

Entre as motivações declaradas para as ações policiais de março, chamou a atenção a redução acentuada da repressão ao tráfico de drogas. Ela representou 16% do total agora, enquanto em março de 2019 somava 30%.

O relatório, porém, traz uma ponderação. "Nos últimos dias (primeira semana de abril) foi registrado aumento na ocorrência de operações e confrontos em vários pontos do estado e da capital [...] em comunidades como Cidade de Deus, Vila Aliança, Maré e Morro dos Macacos". Essas ações não estão incluídas na análise.

Tiroteios não mudaram Mesmo com a redução das ações policiais, dados do aplicativo Fogo Cruzado indicam que o isolamento social por causa do coronavírus não teve impacto significativo nos tiroteios ou disparos de armas de fogo até agora, se considerada apenas a região metropolitana do Rio.

Nos 15 dias anteriores ao decreto de Witzel, foram 223 registros. Nos 16 dias posteriores, foram 236. Na zona sul da capital, onde o vírus começou a se espalhar primeiro, por exemplo, houve um tiroteio antes e nove depois. O início de abril também não deu trégua: 104 notificações no total em apenas seis dias.

Se comparado o mês inteiro de março com o mesmo período do ano passado, porém, houve uma redução significativa de 795 para 446 tiroteios.

Os registros são feitos pelos usuários da plataforma e coletados na imprensa ou em redes sociais, incluindo as das polícias. É importante lembrar que os períodos analisados são curtos e, portanto, sujeitos a variáveis.

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