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Por Gabriel Moses

A Organização das Nações Unidas (ONU) iria realizar a tradicional Convenção do Direito da Mulher entre o dia 8 a 14 de março, em Nova York. Neste evento, que contou inclusive com um processo seletivo, Fabiana Herculano e mais cinco mulheres no Brasil foram premiadas com suas presenças confirmadas, disputando com cerca de 500 candidatas de todo o Brasil.

A estudante de Direito, também já aprovada na Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), recebeu a notícia de sua aprovação em janeiro. Contudo, a alegria repentina se tornou em um tormento por causa de um imprevisto. Ou melhor, por causa de uma pandemia.

Devido ao coronavírus, a ONU cancelou a convenção forma anual, frustrando o sonho de muitas mulheres, inclusive da Fabiana, de apenas 22 anos.

O cancelamento custou caro para ela. Residente na Taquara, em Jacarepaguá, e de família com renda baixa, Fabiana teve que levantar uma vaquinha para estar presente em Nova York. Ela contou como foi todo o processo, desde o momento que soube de sua aprovação, até o cancelamento por parte da ONU:

- Comecei a fazer o processo em novembro, e em janeiro saiu o resultado dizendo que eu tinha sido aprovada para ir. Desse modo, tive duas semanas para levantar o dinheiro. Fiz uma vaquinha e consegui o dinheiro todo para poder ir, mas faltando três dias para o embarque, fiquei sabendo que a ONU tinha cancelado a Convenção. Quando soube da notícia fiquei desesperada, pois era minha primeira viagem internacional. Para se ter uma ideia, não tinha nem passaporte antes de passar nesse processo seletivo. Então fiquei muito triste na hora, mas o Instituto Global Attitude  (órgão parceiro da ONU) me ofereceu outras alternativas: ou eles me devolveriam o dinheiro, ou eu poderia ir na reunião da alta cúpula política da ONU.

Filha de pedreiro e de empregada doméstica, Fabiana conseguiu aproximadamente R$ 13 mil de ajuda de amigos e até pessoas desconhecidas que tiveram empatia pela causa. Infelizmente, o esforço não foi compensado.

Prudência

A ONU justificou o cancelamento do evento pelo fato de ter gente vindo de delegações de países que ainda não tinham sido infectados. E como Nova York está com o surto, a organização decidiu por não dar prosseguimento à Convenção.

O Instituto Global Attitude, órgão em que Fabiana faz parte, tem status consultivo na ONU, e anualmente eles selecionam jovens e profissionais de um modo geral para poderem ir nessa convenção. Agora em julho, o Instituto estará na reunião da cúpula política da ONU, e ela foi convidada para ir, como forma de compensação.

Sobre a escolha adotada pela Organização, a estudante afirma:

- Do ponto de vista da saúde, foi prudente a ONU cancelar a Convenção. A previsão é que iriam estar presentes 12 mil mulheres de diversos países, porque essa reunião que a gente iria é a maior reunião internacional sobre o direito da mulher. Então iria muita gente, a exposição seria muito grande, e a gente poderia estar no epicentro de um super vetor. Acho que a escolha foi prudente. Do ponto de vista pessoal, fiquei bastante frustrada. Sinceramente estou com muito medo de que até julho essa crise não tenha passado, e eu tenha outra convenção cancelada. Mas a escolha foi prudente. A gente tem que se concentrar e tratar agora esse problema, em fazer essa crise passar o quanto antes, com todo mundo dentro de casa para o coronavírus passar direto e acabar logo com isso. Só assim a gente vai conseguir retornar nosso ritmo normal de vida.

Ler para mudar

Com o objetivo de ingressar na política, Fabiana se destaca em seu bairro pelos trabalhos pioneiros e sociais que realiza. Já participante da Raps (Rede de Ação Política pela Sustentabilidade) e do RenovaBR, ela fundou a primeira biblioteca comunitária da Taquara. Sobre a importância do ensino e as oportunidades que alcançou, a jovem relata:

- Eu sempre estudei em escolas públicas. Meu pai é pedreiro e minha mãe é empregada doméstica, e eu tenho dois irmãos mais novos. Nunca tive maiores recursos para investir nos estudos, mas sempre gostei muito de estudar. Então graças a isso eu fui para um colégio federal no ensino médio, depois consegui passar em uma universidade federal, e por sempre ter feito muitos trabalhos sociais, eu tive a oportunidade no ensino médio de participar de um programa na embaixada americana para jovens lideranças no Brasil. Apesar de ser muito difícil, eu acho que é compensador, pois no final das contas é extremamente cansativo estudar, trabalhar e fazer ainda minha militância social. Mas é compensador quando eu vejo que o meu trabalho tem resultado. Nada do que eu fiz foi em vão, por que tudo que eu fiz me trouxe onde estou hoje. Então, eu não tenho do que reclamar não.

Apegada aos livros desde a infância, Fabiana comentou sobre as dificuldades em colocar a biblioteca em um lugar fixo, e relembrou sua trajetória até aqui na educação e o seu principal intuito em trabalhar em políticas públicas.

- Sobre a fundação da biblioteca, minha maior dificuldade foi em achar um lugar. Vou voltar um pouquinho na minha história: desde criança, eu sempre tive acesso a livros por que meu pai tinha um patrão que era um reitor, e as filhas dele tinham uma faixa etária um pouquinho acima da minha. Então, quando as filhas dele perdiam os livros, ele dava para mim. Graças a isso, eu sempre tive muito acesso a livros, mas eu via que as pessoas do meu entorno não tinham. Muitas vezes você entra na casa de uma família mais humilde e percebe que as pessoas não têm livros. Hoje eu estou com 22 anos, e eu vejo que esse panorama não mudou, e aí eu pensei: como minha vida mudou por conta da educação, seria importante eu fornecer de algum jeito para a minha comunidade o mesmo acesso que eu tive.

Sobre a contenção do coronavírus, a jovem estudante aguarda ansiosamente, já que uma reunião da alta cúpula política da ONU a aguarda em julho. E tudo isso é só o começo de sua promissora carreira voltada para a igualdade de direitos sociais e o direito das mulheres.

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