A Baía de Guanabara é um paciente na CTI com quadro de infecção grave de poluição, acontecendo flutuações periódicas de mortandade de peixes, lixo flutuante e óleo dispersado na superfície. Suas veias entupidas (rios assoreados) de esgoto e lixo são os principais caminhos por onde entram a poluição difusa das cidades e a conduzem diretamente para o espelho d'água da Guanabara.

Entre o mundo ideal de soluções definitivas que não acontecem existe, o mundo real das soluções exequíveis e eficazes. Tenho que admitir que vivo no mundo possível e não posso continuar me iludindo que vou nadar ou pescar em águas límpidas em pouco tempo.

Antes das soluções definitivas, que requerem tempo e vultosos recursos, é preciso construir as soluções paliativas, contudo de resposta rápida para manter o paciente vivo. Para tanto,
precisamos ousar e criar tecnologias alternativas e inovadoras.

A sociedade está cansada de esperar por promessas que não se concluem. É preciso mostrar alternativas nesta contínua trajetória de morte. De um a um, os golfinhos morrem, o lixo cresce e a poluição não se reduz.

Se os rios conduzem o veneno, o bom senso nos indica por onde podemos iniciar a mudança. É preciso estancar a entrada de lixo e esgoto no espelho d'água da baía através dos rios. Neste sentido, a Unidade de Tratamento de Rios (UTR) é uma ferramenta de
comprovada eficácia e já implantada no rio Carioca. Este equipamento é capaz de retirar lixo flutuante, esgoto doméstico, sujidades urbanas conduzidas pela galeria de águas pluviais,
sedimentos e ainda desinfetar as águas se houver contaminação hospitalar.

Esta solução só encontra dois obstáculos:

a) o ineditismo da inovação que colide com os dogmas do conservadorismo e;

b) a necessidade da contínua manutenção e tratamento dos poluentes a serem retirados do meio natural. A cultura da inauguração dos governantes sobrepõe a perseveração da manutenção do tratamento.

Em termos de custos de manutenção, foi realizada uma comparação entre uma Estação de Tratamento de Esgotos (ETE) tradicional de grande porte, como é o caso de Barueri em São Paulo, e uma UTR de mesma capacidade de tratamento. O resultado foi que a UTR tem um custo de manutenção da ordem de 35% inferior à ETE.

Enfim, é na pior das hipóteses uma solução a ser considerada. Será difícil obter apoio da população se esta continuar a ver lixo e esgoto entrando pelo espelho d'água da baía. Reverter este cenário de lixo boiando as margens do novo Museu do Amanhã, sem dúvida, vai trazer esperança e com isso a participação da sociedade.

É preciso haver resultados visíveis aos olhos da sociedade para que ela perceba a mudança. A mudança do cenário da baía perpassa também pela mudança da mentalidade das soluções. A continuidade das soluções ortodoxas, que tem gestação lenta, deve ser apoiada pelas soluções inovadoras e rápidas. Desta forma, em pouco tempo poderemos renovar a esperança de um dia encontrarmos uma baía sem lixo, esgoto e óleo, mas com muita beleza e vida.

Prof. David Zee
Vice-Presidente da Câmara Comunitária da Barra da Tijuca