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 Jornal da Barra: Rommel, são 71 anos de Bar do Oswaldo. Praticamente o bar acompanhou todo o crescimento da região, do Pontal ao Quebra Mar?

 Rommel: Correto! Inclusive minha infância foi dentro dessa Lagoa da Tijuca, que hoje vocês veem assoreada, muitas vezes suja poluída, tomada de jet-skis... Eu fui um felizardo. Jogava futebol num campinho, onde hoje é, Rio Beach Club, que já foi a Ilha do Sol e vários empreendimentos. A gente jogava bola ali e a bola sempre caía dentro da água, porque não tinha cerca. Nós brigávamos para ver quem pegaria a bola, então era um futebol com um polo aquático no meio.  Assim, a gente cresceu nessa juventude saudável, atravessava o lago de prancha, nadando, passava o dia inteiro na praia... Coisas que só quem mora na beira da praia, da lagoa, do mar, pode ter essa sensação, e eu tive esse privilégio. A Barra da Tijuca não tinha nada, quem morou aqui na década de 70 e 80 sabe do que estou falando. Aqui, era um local no qual poucas ruas eram asfaltadas, não havia sinal de trânsito, e estou falando da década de 70 até atualmente, e não da década de 40.

Jornal da Barra: Você está falando do primeiro “boom” da Barra, que foi em 70?

Rommel: Sim, ali começa a ser contada uma nova história da Barra. Ela tem três entradas de acesso, sendo que das três, duas são aclives e declives, a Estrada do Joá e Alto da Boa Vista, e a outra é a estrada velha de Jacarepaguá, que é uma estrada perigosa, porque é estreita e cheia de curvas, ladeando a montanha e a lagoa. Então, você está cercado. Vou dizer que está em um paraíso, e daí, quando quebraram a montanha e fizeram os elevados e os túneis, abriram as portas. Muita gente começou a vir. Várias pessoas começaram a conhecer a Barra, a se aventurar mais aqui. Começou a ser mais fácil ter pessoas aqui na Barra. Esse ponto é interessante para voltar no passado e caracterizar o que significa a Barra da Tijuca dos anos 40, 50 e 60.

Jornal da Barra: Seriam os anos em que o Bar do Oswaldo se instalou aqui?

Rommel: Sim! Em 1946 meu pai era segurança do presidente Getúlio Vargas, e ele tinha um irmão que foi pracinha e foi para a guerra, Cabo Aroldo. Ele viajou para a Itália e escreveram cartas um para o outro. Numa delas, Getúlio dizia “ao pé daquela serra, naquele local onde pessoas ricas se encontram, eu vou esperar você se tornar vitorioso dessa guerra, com suas medalhas, para que possamos então adentrar aquele espaço”. Ele se referia ao bar, que estava em construção, ou em algum local próximo, não sei. Mas as pessoas se reuniam nessa localidade e ele dizia ”quando estiver vitorioso, vou te levar lá”, porque naquela época as pessoas eram patriotas. Então, eu sou muito feliz por um patriota como ele ter nos representado. Isso é muito importante porque marcamos território. Nos dias atuais, há cidades na Itália em que quando você diz que é brasileiro, eles fazem uma homenagem para você, e isso é uma coisa que deveríamos aprender. Enfim, essa carta que li ficou realmente registrada na minha mente. Devia ser algum lugar aqui na Barra, “aquele vale”, e nós estamos em um vale, a montanha abraça a gente. É um local que poderia ter sido “favelizado”, poderia ter sido a favela da Barrinha, basta olhar o espaço que temos para cima. Hoje, aquilo poderia ser uma favela imensa. Não se tornou uma porque as pessoas cuidavam e não deixavam acontecer nada. A Barra da Tijuca era um local onde você tinha uma massa de pessoas não muito grande, você conhecia todas as pessoas, e criar um negócio na Barra achando que ia ser um “boom” era uma utopia. Embora seja perto da praia, tenha diversos atrativos e coisas bacanas.

Jornal da Barra: Mas tinha gente morando aqui entre 1946 e 1950?

Rommel: Tinha sim! Tem relatos, tenho fotos e tudo. Inclusive das manifestações que fazíamos no campinho da Lagoa. Tem fotos do meu pai com os pracinhas da época, com os políticos da época, fotos da campanha pro Jango... Várias campanhas que meu pai fez. Tudo isso está documentado, nada é da boca para a fora. Quando você tem toda essa história guardada, você tem muito cuidado até para não dar nenhum relato falso, porque a história é feita de fatos. E quando há fatos fortes que comprovem e você consiga criar uma cronologia, fazer uma linha do tempo, as coisas vão se desencadeando. Por exemplo, meu pai tinha um clube chamado Barra da Tijuca Futebol Clube, que é onde fica o Rio Beach Clube atualmente, e recebia todos os moradores da Barra da Tijuca. Era a sociedade da Barra. Então, era um clube de muita importância da localidade, inclusive eu tenho atas de reunião, listas de presença, prestações de conta, meu pai guardava tudo isso e estão comigo até hoje. Essas coisas são importantes para relatar que a Barra da Tijuca tem história. Eu ouvi muita gente dizer que a Barra não teve história. Então, quando você tem essa certeza, você briga por coisas como quando, por exemplo, um cara falou “fui eu que dei o nome de Barrinha”, ele deu o nome de Barrinha porque não tem noção do que é o Largo da Barra, então ele chama de Barrinha, mas é Largo da Barra. Quem acatou esse nome “Barrinha”, para ser colocado oficialmente na Prefeitura, foi irresponsável, porque deveria ter sido feito plebiscito.

Jornal da Barra: Voltando para “boom” da Barra, quando abriu esse Viaduto do Joá, o movimento cresceu ou diminuiu?

Rommel: Ficou mais fácil! As pessoas que gostavam passaram a vir com mais frequência e aqueles que não vinham porque achavam longe, passaram a vir também. Não tinha muita coisa para se fazer na Barra. Tinha muito movimento e poucas coisas para se fazer, e o Bar do Oswaldo era uma delas. E, por coincidência, o bar tinha um diferencial, que não tinha nos outros. Chopp tem em todo lugar, a cerveja tem em todo lugar, mas a batida do Oswaldo só tinha no Bar do Oswaldo. Então isso era um grande diferencial do restante dos bares, um dos motivos do Bar do Oswaldo ser tão procurado até hoje e poder ter essa longevidade, esses 71 anos. Vou te dar um exemplo, acompanhe o que vai acontecer com Barra de Guaratiba, Ilha de Guaratiba e Pedra de Guaratiba. Há dois, três anos atrás abriram o túnel da Grota Funda. Em menos de um minuto você o atravessa. Foi isso que aconteceu com o Largo da Barra. Logo depois do viaduto, você tem essa dobra para direita e daí você sai aqui. O que aconteceu aqui foi um acumulo de escolas, casas de festas e prédios nos últimos anos. Esse espaço foi ocupado de uma forma até irregular, porque você pega um trânsito absurdo para entrar e sair do Largo da Barra. A Barra cresceu através dessa vinda desse túnel e desse elevado, porque as pessoas foram chegando e habitando. É o que vai acontecer agora com a Barra de Guaratiba, Ilha de Guaratiba e Pedra de Guaratiba, tanto que os imóveis aumentaram absurdamente, e a tendência é cada vez aumentar mais. Agora a exploração imobiliária vai ser por lá, porque a Barra praticamente já não tem mais terreno. O solo da Barra está muito caro. Da década de 40 até hoje em dia, eu te garanto que a Barra da Tijuca, durante muitos anos vinha horizontal e sofreu uma verticalização a partir do momento em que abriram o elevado. E do elevado para cá ela até voltou a ter outro momento de horizontalidade, principalmente a partir do momento em que veio a Linha Amarela, BRT, metrô e tudo mais. Ela está agora se tornando cada vez mais a Copacabana dos tempos modernos. Uma coisa legal que eu fico imaginando, e me assusta às vezes, é que, se você fizer uma linha do tempo, começando em 1940 ao momento que surge o Bar do Oswaldo, fazendo um acompanhamento, várias coisas acabaram e abriram no lugar. O Bar do Oswaldo está em todos os períodos da Barra. Não vamos falar de Dom Pedro, mas de Vargas a Temer. “Morte de Getúlio Vagas”, “Governo Militar”, “Sarney”, “Collor”, “Plano Real”, “Plano Cruzado”, “Dilma”, “Temer”, e o Bar do Oswaldo continua o mesmo. Eu costumo brincar da seguinte forma: as batidas são fundamentais, pois sem elas, você não vive. Tem as batidas do coração, as batidas da música, tudo isso tem batidas, logicamente que não queremos batidas de carro, então por isso se beber não dirija.